segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A Morte do Leiteiro (E Como Nós Matamo-lo Pela Segunda Vez)

A fala repetitiva é uma técnica de ensino. Porém, quando a insistência entedia, porque você já entendeu, queremos defenestrar o Cabra, a Cabrita, seja lá qual seja o mestre da repetição. Rememora-me quando “uma sala inteira matou o leiteiro”. Mas antes disso, vamos ao poeta...
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta gracinha. Até a Hebe Camargo diria isso se estivesse viva. No período do colégio, quando folheava inspirações, lá estava o poeta chamando a minha atenção. Eu pegava seus livros, lia algumas poesias e estonteava a escrever, não uma cópia dele, aquilo apenas botava fogo em mim. Digo apenas um “exceto” a respeito de algumas de suas poesias que não me levavam a uma viagem com um bilhete apenas de ida, um shot só, um suspiro quase igual ao do amo, mas não chega a tanto. Eu deixava-os passar quando chegava a vez deles. Pulava para aqueles que a memória gostava de receber e botava de lado as espinhas daquele peixão. E lá vinha para mim mais inspirações. Isso é muito bom.
Anos se passaram e entrei na faculdade de Letras. A matéria de Teoria Literária tinha um cheiro de “prometo, serei incrível”. É, foi quase isso, se não fosse a história da morte do leiteiro...
O professor ofereceu-nos dois textos, um subjetivo e poético e outro objetivo e jornalístico sobre a real morte de um leiteiro na época do guaraná com rolha. O jornal expunha fatos enquanto Drummond poetizou, mas me desculpe, foi uma longa poetizada.
E por quase um semestre inteiro, o professor Cotonete fez-nos estudar o mesmo texto por diversas vezes. Devaneava em suas digressões, e os olhinhos começaram a virar de raiva. Por isso, fizeram um grupo em conciso com toda a sala e reclamaram na coordenação. O professor, no ano seguinte, não voltou a dar aula na Universidade. Enfim, matamos o leiteiro de vez.
O Professor Cotonete era um homem inteligente, mas eu não entendia a insistência da sua repetição. A bola quicava para frente onde estavam outras ferramentas da literatura, mas a bica não foi dada. Muito triste tudo isso. Hoje em dia eu evito o leite. Tenho alergia.

Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

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