quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Canga Brasileira Se Lava em Casa

(Essa crônica foi publicada excepcionalmente nessa quarta-feira).

"Roupa suja lava-se em casa!". Mesmo porque se alguém se suja, não existe outro lugar para renovar a roupa senão no meio dos seus e debaixo de seu próprio teto.
Em um evento recente, uma jovem comediante fez um stand up em Nova Iorque para diversos brasileiros que ali moravam. Antes, ela deu suas opiniões na internet sobre os jogos olímpicos em sua cidade, coisas reais, sim, que ocorreram e precisam ser revistas. Mas houve um problema enorme, porque a moça fez um vídeo-aviso para os estrangeiros que estavam vindo ao Brasil. Depois disso, na Big Apple, ela foi altamente hostilizada. Chorou, pois, as coisas não deram muito certo. Saiu do palco e deu sua opinião. Terminamos sobre ela aqui.
Eu estudo Língua Inglesa com pessoas do mundo inteiro aqui na Califórnia. Tailândia, Chile, Turquia, México, China, Ira, Argentina, El Salvador, Coreia do Sul, Colômbia, Itália, Vietnã, Camboja ... Uma Paella das Nações. A professora, uma Americana de Nova Iorque que dá aula na escola por 40 anos, e uma das mais incríveis que já conheci. Na gramática, um Pelé. Ela havia separado no segundo tempo das aulas de sexta para que alguns alunos falassem sobre suas nações, uma pequena palestra para que todos conhecessem mais de suas culturas.
Contudo, na primeira palestra da sala (nem sabia das palestras, isso no início da classe), eu passei mal antes do intervalo. Então, uma jovem brasileira carioca, foi apresentar sobre o Brasil:
- Quando vocês ouvem sobre o Brasil, o que vocês lembram? – Perguntou aos alunos. E o povo falava: "Samba!", "Neymar!", "Rio!". A menina arrematou:
- Não. O Brasil e muito pior que isso... - O que soube e que a menina expos as suas opiniões pejorativas. Conflitos em escolas, polícia entrando em salas de aula, ela falando na CNN.
Nesse ínterim, um baiano ouvia tudo isso. Outros rapazes de outras nações olharam para ele, perguntando se ele não faria nada porque a menina estava estraçalhando o próprio pais.
Quando foi dado o momento dos questionamentos, o rapaz, faca na bota, deu bicas de palavras. Ao seu ver, estava tudo errado expor o país daquela maneira. A menina chorou no seu romantismo, pelo que a consolaram mais pela estupidez do rapaz do que pela crise no Brasil. Contaram-me o fato, e só tive uma coisa a dizer:
- Eu ter passado mal foi livramento de Deus, só pode ser.
Se eu estivesse na sala, não saberia o que falaria. O clima ficou ruim depois disso. A menina não apareceu mais, tumultuou e foi embora para o Brasil. Quanto ao rapaz, enfiou a faca da bota em sua própria garganta. Esgoelar-se não valeu a pena.
Entretanto, semanas depois, a professora queria saber se outras pessoas queriam falar sobre seus países. Eu só pude levantar a minha mão e me oferecer.
Uma semana depois, eu mostrei o que amo no Brasil. Lugares desconhecidos para os estrangeiros que nunca ouviram a respeito. Construções históricas, bairros e comidas que eles nunca na vida degustaram. Expus como Deus marcou seus dedos nos Lençóis Maranhenses... Como Brasília foi construída por um homem que baseou suas elipses no Barroco; de onde veio o Açaí Berry; Como São Paulo não tem praia, mas temos parques, bibliotecas e museus, nossos bairros dos imigrantes, a comida saudosa do Mercadão Municipal da Cantareira, mortadela e Cod Pastry, santificados lanches... E como a minha infância foi aventurosa no bairro do Brás.
"O Brasil está cheio de problemas políticos e seus roubos. A educação não é boa, porém eu acredito em Deus, e acredito que Ele está fazendo algo pelo meu pais. O povo é trabalhador, e digo:
"The best of Brazil is the brazilians".

Há brasileiros que por aqui habitam que dizem não ser mais brasileiros. Esses, por esse motivo, perderam seu próprio R.G.: Eles não valorizam nem a si mesmos. São os sem-nação, pois esqueçam, vocês nunca serão americanos, ingratos. Eu sempre serei brasileira por onde correr com Deus. Aqui na terra, essa e a minha identidade provisória, já que um dia morarei no céu.
Relembre eu que minha terra ainda tem palmeiras onde canta o sabiá. Que as gaivotas que aqui gorjeiam, com certeza não gorjeiam como as de lá.

 Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Dia Que Virei um Dálmata

Quando soube que tomaria uma bicicleta para circular nessa cidade californiana, temi. Já tomei tantos capotes que me traumatizaram, e andar de bicicleta era um desafio para mim. Ao arranjar uma bicicleta emprestada, minha irmã queria me ensinar algumas manhas, como não brecar na dianteira e sair voando à metros. Contudo me lembrei de minhas experiências e disse a ela:
- Ih, depois da Serra da Cantareira ando em qualquer lugar!
Sim. A Serra da Cantareira. Ali há uma trilha de Down Hill tão terrível que certa feita um rapaz... Melhor não contar. Essa crônica não é o Cidade Alerta.
Tudo aconteceu quando um grupo de amigos loucos da igreja me convidaram para ir naquele terror. Sabia que não prestaria e mesmo assim fui com eles. Ao chegar na entrada da trilha, tomei um susto. Havia chovido e haviam sulcos profundos e sinuosos pelo caminho.
“É hoje que morro”.
Foi uma das experiências mais terríveis que eu vivi. Cai tanto da bicicleta que o corpo já não doía mais. Foi então que a trilha terminou e entramos numa estrada coberta de britas onde também circulavam carros. Fizemos uma fila, e eu sempre tinha medo de carros na mesma via das bicicletas. Então, algum abençoado gritou:
- Olha o carro!
Nisso, eu assustei, dei uma virada na bicicleta e me arrastei como um avião pousando na brita. Uma grande poeira subiu, e no meio dela a Vandressa dilacerada. Todos pararam, minha roupa toda esfarrapada, o osso esquerdo do quadril e as palmas das mãos raladas. Na minha boca formou-se um brigadeiro, e o nariz se impregnou de sujeira. Minha turma parou, foi me socorrer, deram-me água, primeiros-socorros e depois riram. Vão se catar todos eles. Até hoje eles riem de mim, e talvez na mente deles eu nunca mais deveria pegar uma bicicleta na vida. Bobinhos.
Ao chegar em casa, meu corpo inteiro eram hematomas. Eu era um dálmata.
Aprendi a andar de bicicleta quando morava no Brás. As ruas planas que dividem até hoje o espaço nos dias comerciais com os caminhões e sacas de grãos. Mas no fim de semana a rua estava livre, e nós gastávamos nossas energias infantis naquela rua da turminha do Brás. Quando consegui minha primeira pedalada, a rua inteira torcia por mim. Eles não pensavam na minha queda, eles torciam para eu ficar de pé.
Então, vim para a Califórnia. Aqui, ou você se locomove de carro ou de bicicleta porque alguns lugares são distantes demais para andar a pé. Descolei uma bicicleta para ir à Escola e para trabalhar. Teria que enfrentar os carros de novo, outros ciclistas, outras subidas e descidas. Meu Pai, lá fui eu de novo. E quer saber? Foi uma das melhores coisas que fiz nesse lugar. Não tenho medo da direção, não breco na dianteira, subi o assento e ganhei o chão.
Todos os dias, eu corro com ela. Pego trilhas, vou ao Harbour, desço até a praia. Às vezes eu grito de emoção na velocidade, e na noite escura e sem carro algum, na minha rua pouco iluminada, corro um pouco mais até alcançar o radar movido à energia solar. Sempre marca 11 miles quando passo, porém um dia corri um pouco mais e cheguei à 14 miles. Eu, Deus, e a bicicleta que eu não tenho mais medo de andar.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Do Angu ao Fondue, Tudo Posso

Caso hoje você apenas tenha comido arroz com feijão, angu doce no café da manhã e angu salgado no almoço, não se preocupe não. Amanhã, quem sabe, você estará comendo um prato especial em outro país do mundo, algo que você nunca viveu. Oportunidades abençoadas de Deus sempre aparecem aos que entram e saem de sua Presença, esses que sabem passar por qualquer situação.
Na minha pré-adolescência, logo que meus pais faleceram, eu e meus irmãos fomos morar com a minha tia e meu primo. O dinheiro que entrava não dava conta, e minha tia improvisava nessa história do angu. A gente não reclamava do que vinha no prato não, a não ser o quiabo, o rabanete, a buchada e, no caso do meu irmão caçula, a berinjela. A cena toda era na Vila Missionária, um bairro do subúrbio que vivíamos escapando dos “Billies The Kids”. Tudo podíamos, Deus era conosco.
 Muitos anos depois, numa porta que se abriu, peguei minhas malas e fiz uma viagem louca com uma amiga a Paris. Na rua do hostel havia um mercado Dia, muito popular em São Paulo. O ambiente era igual, mas a diferença eram os queijos dignos de Mercadão da Cantareira, patê de fígado de ganso (foie gras) e Chocolates Lindt como o nosso querido Lacta. Mas não. Naquele mesmo mercado comprávamos a preço de banana os nossos quitutes, mas o principal era a “Saladinha do Dia” – croutons, frango, alface... Comíamos isso para economizar e “andar por ai” numa cidade tão luxuosa e cara, o zelo tinha que ser constante.
Mas, numa tarde de muita fome, depois de desviar das pombas em Notre Dame e atravessar o canal do Sena, queria encontrar uma loja de cosméticos baratos. Perdi o rumo, entrei numa tal “Rue Saint Severin”, um beco estreito entre pequenos restaurantes e uma arquitetura mais antiga que a Brigite Bardot. De repente, paramos em frente a um modesto restaurante de canto, que apresentava em uma mesa e de forma bem atrativa um de seus pratos: “Fondue”. O queijo derretendo no foguinho do Richaud. Nos entreolhamos, era o sinal de “Hi five! Vamos ai”. Nunca pensei em estar em Paris, nunca pensei em comer aquela coisa de sabor inefável. Tudo podia. Aquele prazer foi Deus quem me deu.
Passado a viagem, numa preleção, ouvimos eu e minha amiga de viagem: “Sei passar necessidade, e também ser ter abundancia. Em toda maneira, e em todas as coisas aprendi tanto a ter fartura, como ter fome, tanto ter abundancia, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece”. Filipenses 4:12,13.
A amiga sussurrou em meu ouvido:
- Posso comer num dia “Saladinha do Dia” e no outro, Fondue.
Eu ri, chamei a atenção do preletor. Não era beijinho no ombro, foi apenas aquela situação.
Dou risada nos momentos de apenas arroz e feijão. Dou mais risada quando o inesperado acontece. Desde os tempos do angu, é Deus quem me fortalece.

 Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O Contralto da Tia Li

Cantar não é um chamado específico para mim porque todos nós fomos chamados para ressoar, coisa vinda dos céus até aos desafinados de coração. Todos podemos cantar, mas nem todos vão agradar, e faz jus ao ditado “quem canta os males espanta”. Certa vez escrevi em outra crônica sobre o cantar para Deus embora o desafino, o que vale é a palpitação do coração.
Nas igrejas existem os melhores cantores. Muitos desses músicos seculares saíram dos templos. Eles são os melhores porque foram criados para exercer adoração a Deus, mas o coração se nubla e vacalha na jornada.
Quando entrei na igreja, eu pensava que cantaria no louvor, que é a banda que toca e canta durante os cultos. Havia um teste para backing vocal para o louvor dos jovens, e corri para isso. Minha voz não se encaixava, não entendia bem aquilo, e a ministra de louvor, disse-me:
- Sua voz é boa mas fica bem para cantar no meio da congregação.
Melhor era abafar minha desafinada e ignorante voz.
Mas veio o teste do coral. Nem o fiz. A ministra de louvor olhou para mim e disse:
- Pode vir, Vandinha... – E deu uma risada conformada – Pode vir.
Então, comecei a entender o que era cantar tornando-me coralista.
Minha voz não se encaixava porque eu era contralto, a voz mais grave da ala feminina. Não arrasava tanto quanto um Soprano, tons mais agudos da ala feminina, mas quando aparecia, o blues celestial acontecia. Fui muito bem e permaneci no coral, até que entrou a Tia Li. Ela era uma mulher de cabelos curtos que sempre quando podia mudava de cor. Preto, castanho, loiro. Vestia-se muito bem! Lembro do seu terninho vermelho e camisa preta quando subia no louvor durante os cultos. Sua voz era do mais intenso contralto, e, depois que a ministra anterior foi ser missionária do Sul do Brasil, ela assumiu o posto.
Cai nas graças da Tia Li. Ela queria me colocar no louvor, mas na altura do campeonato, os céus me direcionavam para uma outra missão na terra. Mesmo assim permaneci no coral, não sabia bem o porquê.
Haviam passado duas cantatas, e tia Li me chamou para fazer um trieto de contraltos. Meu tom, claro, o mais grave, dava apoio às outras, e naquele Natal fiz meu serviço. Sai do coral na cantata de Páscoa seguinte. Encher o diafragma me dava muita tontura.
Mas a Tia Li permaneceu, dirigiu mais algumas cantatas, até que se constatou novos tumores malignos em seu corpo. Tempos antes, ela sarou, mas naquele momento, o câncer estava agressivo. Deus a levou para cantar nos céus. Ela veio de uma casa de Levitas, e tudo que Deus queria era a sua voz. Se hoje sou contralto, foi porque aprendi com ela.
Depois dela tentei entrar em outras cantatas, mas meu tempo não se encaixava. Sempre era chamada, mas nunca conseguia permanecer por falta de tempo e porque sabia das pressões que eram os ensaios.
 Todas às vezes que vejo um coral cantando, eu morro de vontade de voltar porque sempre tenho a impressão que os céus se abrem quando as vozes se unem. A Tia Li sabia fazer isso, fazer um ajuntamento para romper os céus.
Quando eu chegar lá no céu, vou cantar do lado da Tia Li, os contraltos poderosos ao Eterno, àquele que criou toda a voz.

 Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração