segunda-feira, 27 de junho de 2016

Com Desprazer, Passas ao Rum

Falar de uva passa me faz lembrar da farofa do Natal e da pescaria feita na fatia de panetonne lotado de frutas (ieca) cristalizadas. Recorda-me também do doce alemão Strudel, que contém ricota e maçã para disfarçar o fiasco da condenada. E, claro, não posso esquecer da delícia do salpicão da vovó e da titia, sempre lembrando da maçã salvadora, se é que gostas da bendita. Eu não estou aqui para falar mal da uva passa, mesmo porque eu gosto dela. O entrave aqui é quando ela aparece nos momentos errados como certas coisas na vida que são enviadas para nós com aparência de “nice” mas é um verdadeiro desastre.
Com desprazer, apresento a vocês, passas ao rum - O sorvete.
Em verdade, em verdade vos digo: Amo esse sorvete. Não o vi em nenhum outro lugar do mundo a não ser no Brasil. Não estou ostentando as viagens que fiz pela grana suada de meu trabalho (thanks, Lord!), nem pesquisei na internet para fazer spoiler do assunto. Eu nem quero saber aonde foi criado! Eu quero é contar a minha história!
Assim como numa aventura longa em outro país que não precisaria tomar esse sorvete, ele surgiu na minha vida bem no dia que eu jamais precisaria dele...

Era tarde e eu tomara todos os remédios para a cirurgia que faria à noite para a retirada dos sisos. Oras, nunca tinha feito nenhuma operação na minha vida! Faltou-me é revelação para discernir que precisava jejuar dias antes porque o confronto seria fortíssimo, e por que? Meus dois sisos inferiores não brotaram, e estavam dentro da gengiva. Portanto, ele rasgaria a minha gengiva e os arrancaria... Mas do lado esquerdo, um problema: a raíz era como um gancho. Então previamente sabia que, além de abrir a minha gengiva, ele racharia o dente no meio, arrancaria um lado e depois o outro.
Pobre Chica.
Um lado saiu, mas o outro, não. O dentista tirava, mas o dente voltava como um elástico preso no osso. Eu fiquei na cadeira por quase uma hora, sangrando horrores, suando frio e orando na mente para que viesse um exército de anjos cirurgiões.
Luta travada.
A cirurgia foi desgastante para mim, para o dentista, para a auxiliar. Minha bochecha estava maior do que o convencional de uma cirurgia, de modo que o próprio profissional me deixou em casa e me deu o telefone da emergência (caso os pontos abrissem). Oh! Corria perigo de vida!
E onde o sorvete de passas ao rum entra? Agora mesmo.
Eu morava com meu irmão caçula. Cheguei antes dele, e assim que chegou do trabalho com a cara mais injuriada do planeta, pedi algo a ele.
- Você pode comprar um pote de sorvete para mim?
Ele fez um carão maior que o meu, pegou o dinheiro da minha mão com raiva, e foi a contragosto. Ao voltar, um pote de sorvete passas ao rum.
- Cara, mas eu não posso mastigar!
O amor do meu irmão foi tão grande e o meu por ele que tomei o sorvete na pescaria igual aquele panettone do Natal que narrei para vocês. Nem dava para murmurar mesmo! Passei dois dias naquele sorvete “rum, sim, passas não” até acabar, que eu não sou nêga de perder dinheiro nem comida. E damos Glória.
Por fim, entenda. Muitas coisas boas são BOAS em seus momentos certos. Mas nunca acredite que em todo tempo o será já que há tempo de abraçar e de se afastar de abraçar. Abrace a dica que tudo passa.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O Dia que Não me Preocupa

Quando eu pisei nesse país pela quarta vez, o agente federal perguntou-me se eu me casaria com um gringo. Maybe yes, maybe no, só Deus sabe, meu querido. Ele riu. Sua tranquilidade psicodélica estava filtrada pelo seu box que tocava Pink Floyd (The Dark Side of de Moon), a mesma droga que eu injetava na mente quando eu tinha apenas 14 anos. Saí do guichê rindo no canto da boca por tanto sincerar a minha vida do quem sabe diga “my love”. Mas não foi isso que decidi procurar aqui.
Um de meus familiares desejava que eu ali encontrasse um cristão numa igreja da cidade e tivesse uma menininha gringa num lar americano entre burritos, bacon e cookies. Daria o nome de Ashley, Queen, Viola... Que falariam com seu sotaque carregado e salientando “schwa” da fonética americana. Não é “schwa” das minhas filhas gringuinhas que procuro por aqui.
Enquanto estava no Brasil, boa parte dos amigos que sabiam de minha viagem apontavam e riam numa esperança no rosto. “Ah, você vai acabar casando por lá”. Ei, não é isso que vim procurar aqui.
No Brasil, o dia dos namorados. Aqui, o “Valentine´s Day” é apenas no começo do ano. Para que vou me preocupar, já que uma nova estação chegou para mim? E, para que vou me preocupar com a ansiedade dos outros que querem meu casamento, que estou velha, acabada, os cabelos brancos brotando na cabeça e que nunca foram pintados na vida, e isso é mais um sinal (da sua cabeça) que já passou da hora de eu matrimoniar? Meu amor, meu amor... Vai se catar... Eu estou na Califórnia.
Não se preocupe por mim, por mim não me preocupo. Nos pacotes de ansiedade, despacho meus pesos, e nessa leveza espero em Deus. Queriam jogar qualquer coisa em meu colo, gritando por vezes sem gritar que eu perdi a chance da minha vida. “Valha-me, Deus”, que mostre a todos vós essa profundidade. Jamais dormiria com um motor de ônibus tão barulhento que precisa sempre mostrar que é um busão. Subam todos, subam todos, mas não se incomodem com o barulhão.
Há um lugar mais profundo que o silencio do homem não consegue entender. Há um lugar secreto onde posso esperar a minha vez. Aqui ou em qualquer lugar do mundo posso esperar em Deus. O que valhe a pena é continuar correndo e correndo... E nessa corrida, sei que vou esbarrar em alguém. Não se preocupe, eu estou correndo.     

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.