segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eu Não Preciso de Cartomante

Eu estava numa cidade qualquer com uma pessoa que não é qualquer numa noite cansativa de passeio. Voltávamos ao albergue, esses que existem ao redor do mundo, Rio, São Paulo, Londres, Santiago. Levei uma bolsa grande e joguei a única chave do quarto que dividíamos naquele abismo que geralmente sabemos o que é e nunca encontramos nada. Na esquina da rua do albergue, disse a essa pessoa que daria um pulo no mercado do outro lado da cidade porque precisava comprar não recordo o quê. Ela voltaria ao albergue, entreguei a bolsa, mas a sujeita perguntou da perdida.
- A chave.
Eu revirei toda a bolsa e não a encontrei de modo algum. Pensei ter perdido! Por um momento deixei para lá, e fomos caminhando a passos suaves na direção da hospedaria para ver se respirava fundo. Então, passamos em frente a uma loja de cartomante: havia uma vitrine expondo uma mesa e uma mulher sentada esperando a próxima vítima. O ambiente tinha uma luz fraca num espaço veludo vermelho, escondendo os fundos onde provavelmente sua família padecia na confusão. Nem comentei nada da loja novamente porque outrora protestei daquela afronta aos céus e a parceira nesse “duets” se injuriou com isso.
Assim que passamos em frente, a pessoa me sugeriu:
- Ah, pergunta pra cartomante! – Ela riu. Compreendi sua graça, a sua boba piada. Mas respondi o que veio naquele momento:
- Eu tenho o Espírito Santo. Eu não preciso de cartomante.
Depois que falei aquilo, dei cincos passos e parei no nada. Vi o formato trapézio invertido da bolsa diante de mim, e no canto direito, no fundo dela, a chave brilhava. Eu estava de olhos abertos vendo tudo aquilo e estagnei como estátua. Então falei:
- Espere. Eu sei onde a chave está.
Enfiei a mão na bolsa sem olhar, naquela direção que o Espírito Santo me revelou. Puxei a chave para fora, mostrei à “duet”, e falei:
- Não falei que eu não preciso de cartomante?
Puxou-me a chave da mão e disse que era brincadeira. Nem zombei ou falei algo. Fui ao mercado e só depois me dei conta do que tinha acontecido.
E é sempre assim, como se o vaso ao ser cheio não tivesse ainda, de primeira, tomado parte daquele conteúdo. Depois, o tempo passa, e aquela porção impregna no vaso com todo o seu cheiro e o seu sabor. Assim é todo aquele nascido do Espírito. E assim, fica mais notório que sobre a minha vida não vale encantamento.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração.