segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Portal do Brás

Eu fui uma garotinha do Brás. Quem de lá foi, sempre há um gosto de muitas memórias marcantes porque o bairro do Brás em si tem seu próprio estilo ainda que deplorável. É exatamente o deplorável que me incomoda e me chama a atenção.
Qual época não fora deplorável aquele lugar? Morei na Rua Benjamim de Oliveira, andando três quadras, ali estava o meu antigo quintal, o meu parquinho de diversões. Eu saí com minha irmã nesse último sábado, era o último dia dela na cidade, fomos visitar uma família muito amiga que nos conhecemos desde que eu lembro que existo, aquele sobradinho branco do lado do prédio em que morava.
Contudo, voltemos até o começo dessa Benjamim, ali cruzando a famosa rua Santa Rosa...
Sim, era o mesmo Banco na esquina. Do outro lado, os ratos andavam como se na terra não existissem gatos. Entramos a passos ligeiros conforme o atletismo da minha irmã que é assim desde que éramos pequenas, ela de pernas longas e eu pequena, correndo ao seu lado. Para fechar a digressão, sou maior que ela hoje.
Algumas coisas não mudaram... Aquele cheiro de sobra de grãos, o alho que deixou cheiro no rastro, as os prédios ocultos que nunca mais foram pintados, os números dos armazéns que tenho certeza que alguém que ouvia Adoniran Barbosa ainda vivo desenhou. Na extensão das lajes dos primeiros andares dos prédios de apenas dois andares, o aço aparente exposto se deteriorando, e as mulheres nos degraus do hall vendo suas crianças brincar de bicicleta diante de si.
O sol já partira, a escuridão estava chegando. Meu Pai, é hora de entrar em casa. Igualmente, aquele visual não mudou, nem aquela apreensão das ruas escuras do velho bairro. Agora, construtoras ergueram condomínios altos no lugar de muitos galpões, corajosos novos moradores, todos os dias dando de ombros com os caminhões. Creio que eles se ferraram, o trânsito pegou a todos.
Saímos na noite, fomos até a Avenida Mercúrio pegar o ônibus até o metrô. Minha irmã ficou apreensiva, mas eu estava disposta a correr. No ermo, o ponto de ônibus, e vi sem ver o abandono do Brás. Eu abandonei-o a muito tempo, de sopetão, nem o queria, mas uma graça muito grande se fez em meio às intempéries da época.
Sou grata porque isso nos aconteceu, mas olho para trás, pensando naquele Brás das pessoas ali abandonadas, cativas por uma porta espiritual que se abriu há muito tempo naquele lugar. Eu quero voltar um dia lá, só para fazer o que tenho que fazer. Enquanto isso, eu lançarei as minhas setas à distância, até que esse dia venha a calhar.

Vandressa Holanda Gefali

 Direto desta geração.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eu Não Preciso de Cartomante

Eu estava numa cidade qualquer com uma pessoa que não é qualquer numa noite cansativa de passeio. Voltávamos ao albergue, esses que existem ao redor do mundo, Rio, São Paulo, Londres, Santiago. Levei uma bolsa grande e joguei a única chave do quarto que dividíamos naquele abismo que geralmente sabemos o que é e nunca encontramos nada. Na esquina da rua do albergue, disse a essa pessoa que daria um pulo no mercado do outro lado da cidade porque precisava comprar não recordo o quê. Ela voltaria ao albergue, entreguei a bolsa, mas a sujeita perguntou da perdida.
- A chave.
Eu revirei toda a bolsa e não a encontrei de modo algum. Pensei ter perdido! Por um momento deixei para lá, e fomos caminhando a passos suaves na direção da hospedaria para ver se respirava fundo. Então, passamos em frente a uma loja de cartomante: havia uma vitrine expondo uma mesa e uma mulher sentada esperando a próxima vítima. O ambiente tinha uma luz fraca num espaço veludo vermelho, escondendo os fundos onde provavelmente sua família padecia na confusão. Nem comentei nada da loja novamente porque outrora protestei daquela afronta aos céus e a parceira nesse “duets” se injuriou com isso.
Assim que passamos em frente, a pessoa me sugeriu:
- Ah, pergunta pra cartomante! – Ela riu. Compreendi sua graça, a sua boba piada. Mas respondi o que veio naquele momento:
- Eu tenho o Espírito Santo. Eu não preciso de cartomante.
Depois que falei aquilo, dei cincos passos e parei no nada. Vi o formato trapézio invertido da bolsa diante de mim, e no canto direito, no fundo dela, a chave brilhava. Eu estava de olhos abertos vendo tudo aquilo e estagnei como estátua. Então falei:
- Espere. Eu sei onde a chave está.
Enfiei a mão na bolsa sem olhar, naquela direção que o Espírito Santo me revelou. Puxei a chave para fora, mostrei à “duet”, e falei:
- Não falei que eu não preciso de cartomante?
Puxou-me a chave da mão e disse que era brincadeira. Nem zombei ou falei algo. Fui ao mercado e só depois me dei conta do que tinha acontecido.
E é sempre assim, como se o vaso ao ser cheio não tivesse ainda, de primeira, tomado parte daquele conteúdo. Depois, o tempo passa, e aquela porção impregna no vaso com todo o seu cheiro e o seu sabor. Assim é todo aquele nascido do Espírito. E assim, fica mais notório que sobre a minha vida não vale encantamento.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Magrelinho de Santana

Santana é o bairro que brevemente já não terei e me leva a meditar todos os dias. É antagônico de um lado para o outro, de um nível alto para o baixo, tenho muito a falar. Porque assim é seu extrato social, e se você vai mais alto, esnoba-se, e se for mais baixo, sarjeta-se.
Estou no alto não sendo tão rica e ao meu redor esgueira-se a falência de muita gente, o resto de fortuna de um passado já declarado em Dancing Dance, porque aqui, com todo o respeito, há muita gente idosa, que de alguma maneira ainda vive das nostalgias, e talvez já não queiram mais as sombras das revistas sociais. Ex-socialites, ex-diretores de grandes bancos e suas esposas. Aqui no alto de Santana sempre esbarro em suas senhoras e seus cães. É só subir a Rua Voluntários da Pátria e encontrarás cada um desses personagens em suas salas de jantar preocupados em nascer e morrer.
Mas, descendo a mesma rua que eu citei ao pé de seu declive, tudo muda de figura. Ao virar na Avenida Cruzeiro do Sul, faça isso a pé se a coragem o permitir, o cenário vai mudar drasticamente. Numa praça, que não me pergunte o nome, estão tantos moradores de rua que ao passar por ali o cheiro de necessidade impregna no nariz. Bêbados, loucos... Ei sociedade, ninguém quer chegar perto. Fiquem ao pé do morro e mofem por ai, grita a plenos pulmões a nossa indiferença.
Aconselho, contudo, a não descer por ali na noite. Abordagens de rua são sempre conflituosas. Certa vez, parada eu num ponto de ônibus, um mendigo com problemas mentais veio em minha direção então pensei em correr. Mas calculei na cinemática da situação quem chegaria primeiro, ele ou o ônibus que acabara de virar a praça para subir o bairro requinte. Subi para o ônibus com um acento de soldado e parti do confronto.
Todos esses personagens de extratos me chamam a atenção. De um lado do terminal de ônibus até o outro da avenida nas travessas da Cruzeiro do Sul à Voluntários, há tantos necessitados e cada um deles me surpreende, e todas as vezes um deles me chama mais a atenção. Um jovem magríssimo e trigueiro, cheio de marcas de sujeira e uma calça tão encardida talvez endurecida, sempre passa por mim. Ele surge encolhido como se seu andar fosse um crime, como se cada passo nas ruas com os pés descalços fosse apenas um perdão, meu povo, por eu existir. Todas as vezes que o olhava passar, a indiferença caia por terra, mas resistia por medo.
“        Alguém vai fazer algo? Eu não vou fazer nada? Ele é jovem demais, meu Deus... Ele é jovem demais...”.
Faz-se uma leitura. Ele talvez seja algum jovem que abandonou sua velha terra para se aventurar nessa rude capital para ver o que dava. Veio de muito longe, e agora, já não pode voltar. Ou fugiu de casa e dos abusos da vida, e de tanta rejeição endureceu como aquela calça que adquiriu já não lembra a data.
A vontade de abordá-lo é muito grande. Eu já falei com ele quando vinha do trabalho. Desci perto de um supermercado próximo à Brasleme e de repente me deparei com ele sentado no chão. Ele falou comigo:
- Moça, me paga um café?
Fitei-o. Ele não era louco. É apenas um sofrido de rejeição.
- É claro. Espere ai.
Entrei num bar, comprei um pingado, duas colheres de açúcar, mexendo e mexendo, está ai, campeão. Arrependi-me de não falar com ele. A pressa da vida anula as melhores experiências.
Quase todos os dias, vejo o jovem recalcado (de repressão, e não erroneamente de inveja como essa geração diz), andando de um lado a outro pelo rejeitado pé do morro da sociedade, pedindo em silencio, ajuda-me, por favor. É a cobrança dos céus em mim, de Jesus em mim. Ficara pensando o que podia fazer: abrir a minha casa para aquele desconhecido, mas, e ai?... E se sonda as expectativas do “algo”... Ansiosa, oro e escrevo. Pontuo nos céus essa lembrança, e desço do monte como Zaqueu desceu da árvore, e faço os meus olhos verem ao que me grita, ao desespero de alguém, ao grito do aflito.
Eles, os necessitados, todos os dias gritam ao pé do morro. Sim, eu posso ouvi-los. Sabendo eu, algo tem que acontecer.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Ira Hiroshima

Nunca quero me esquecer dos meus dias de calada, dos dias e das noites que eu fechei a boca ao bater da porta do quarto como se gruda os lábios. O cala boca é opressor e necessário, mas abri-la para os céus é renovador. Se esta última palavra não sei bem o que é, acredito que seja como mergulhar bem profundo numa piscina num dia intenso de verão. Quando saio, sei que me renovei.
Aquela ira mal tratada é como a gripe mal curada que evolui para a tuberculose e mata quem a conserva. A ira não se cura com os berros, e como o tuberculoso, quando se abre a boca para a nuvem de testemunhas, todos ficam doentes igualmente. É melhor calar, e falar com quem entende de doente.
Sabe que Davi aplacou a sua ira em oração. Calou-se para o mundo e não deixou de orar. Calou-se para todos, mas registrou em canções a sua injuria, desgrudou-se desse peso e dormiu muito em paz...
E eu dormirei, tanto quanto ele, no mesmo quarto em que a Hiroshima explodiu.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração.