terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mais um Romance

Amanhã mais um desafio literário começará na minha vida. É um evento global de escritores do mundo todo que escreverão mais de 50.000 palavras de suas histórias durante o mês de novembro. Cada dia registrarão a quantidade de palavras elaboradas, e talvez morram de tédio por faltar célula dramática em seus enredos. É, eu sei o que é isso.
Há um ano atrás participei do mesmo evento e registrei 66.000 palavras e ainda não conclui a história. Entrei num parafuso louco e criei uma marionete desengonçada que precisa de reajustes para que se torne uma invenção de Hugo Cabret. Não desisti do projeto, claro, mas as ideias vibrantes para outros textos surgem dia a dia, como um ser que vai te seguindo clamando para que exista.
E eis um projeto novo me veio à mente, porque não, de tirar uma das minhas cartas na manga literária. Ideia pousada na pasta, de vez em quando matutada sobre a história de um músico. O início da ideia e os primeiros parágrafos já havia esboçado, dando o tom da voz do protagonista. Fui maquiando com o tempo, não esbocei mais o enredo, mas a ideia pairava dentro de mim. Talvez não houvesse começado por medo ou preguiça. Os encaixes da trama que não poderiam ser minguadas e muitos personagens precisariam ser firmes e fortes como o protagonista. Dei à minha criatura um nome que é tão vivo que aquele que ler acreditará que ele existiu.
Abertas algumas coisas, eis o romance quase histórico. Não sei muito sobre esse cenário da minha história, mas tenho uma grande imaginação criada por Deus. Espero Nele que essa história boa, por mais fictícia, torne-se realidade.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Celular – O Ramster Moderno

Telefone celular tem curta vida até menos que um gato e um cachorro. Posso comparar com o sopro de vida de um ramster. Em casa tivemos um que não durou meses. Mas a curta vida do nosso tamagotchi moderno é o sinal de liberdade, já que estamos tapados, e nossa vida entrou na laia do fim. Nós dependemos de algo que na verdade nunca precisaríamos depender.
Não, não mate o seu celular. Ele ainda é útil para encontrar lugares, comunicar-se com mais facilidade com as pessoas que conhece e ainda anunciar os seus trabalhos (trabalhos!) Nas redes sociais. Mas, para mim, essa parafernália toda cansa a mente nas coisas erradas, como aqueles livros de desenhos inúteis que as mulheres cansadas usam nas tardes do “não sei o que fazer”. A Juliana, personagem de Eça de Queirós em “O Primo Basílio” também tinha esses enfados, então mergulhava no nada dos livros românticos no estilo Sabrina – isso deu asas para seu pecado – e a consequência não foi nada boa. O celular é essa Sabrinada também.
Esses dias meu celular quebrou na entrada de carregamento. Ok, “mini USB”. Eu sou aquela pessoa que tem o bicho de estimação até que ele morra de velhice, e não deu outra com esse pobre velho de poucos Gigas. Quando vi que eram suas últimas forças, mandei mensagem aos necessários, e deixei ele padecer no leito da gaveta. Fiquei tão feliz, queria tanto matar aquele Whatsapp de alguma maneira, e por mais que ele me ajudasse a anunciar meus textos, aquilo cansava. E o pior, não conseguia me desligar daquilo.
Então, morreu, aleluia!
Um sentimento muito bom pairou em mim. Não queria outro celular de cara, e fui anunciando minhas crônicas por outros meios. Por mim, não teria outro. Talvez nem tenha esse ramster que corre e corre em sua roda e não leva o sujeito a lugar nenhum, e pior, leva consigo a todos nós.
  Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Pedra no Caminho, Papel Pautado e Joquempô

No meio do meu caminho havia uma pedra, tinha uma barreira no meu caminho literário. Havia uma muralha! Nunca me esquecerei dessa luta diante do enredo. Nas minhas vistas com dois graus diferentes, um estrábico e outro míope, não vou me esquecer que diante de mim, naquela época de escola, havia uma folha quadrada e pautada e uma única e sempre presente sentença: "Um gato está sentado no tapete”, E dali em diante, o que seria?
A professora tirava do armário aquele bolo de folhas quadradas, lançando cada folha em cada carteira como a cartada final de um jogo, agora vocês perderam, jovenzinhos. Ela entregava sua deixa, narrem sobre as férias, sobre a vida, sobre o que vocês quiserem.
Então, vinha um gato em minha mente. O caramba do gatuno que dormia no tapete e só. O felino safado como todo igual que nem se move por 16 horas porque precisa recompor as forças porque a caçada aos ratos seria uma epopeia da gataria.
Eu não pensei em tudo isso. Eu apenas imaginava o bicho deitado no tapete e esperando o mundo desabar numa encosta. O leite do lado, a vida tosca da outra. Mas também não pensei em tudo isso. A imagem não saíra daquele retângulo do tapete do gato elipsado, chamando-me para dizer além. A pequena estória e eu fomos crescendo juntos, lado a lado junto ao frio na espinha, uma agonia pequena de não sair da folha quadrada. Eu era o gato deitado no tapete. Eu elipsava em meu senso criativo.
Com o tempo, a pedra diante de mim, a barreira, a muralha ficou retangular, e eu descobri que o fim do quadrado literário era a porta, que em cada linha foi sendo quebrado, formando a nova estorinha do gato no tapete...
O gato no tapete em seus sonhos de telhado encontrou-se com o cachorro da vizinha e eis a confusão. Na beirada do caminho, o gatuno, arrepiado e expondo todos os seus canivetes nos dentes e nas garras, foi encurralado pelo cachorro risonho da vizinha, a ordinária, que o soltou para arrepiar a gataria. Pela direita e pela esquerda, o gato não tinha saída, pois o cachorro como uma garota saltitante com seu vestido gracioso pulava de cá para lá, e tudo que via era uma grande treta. Vou perder pelos, tempo de sono e a autoestima de felino - seus últimos pensamentos. Todos os outros gatos se ajuntariam nos outros telhados para lamber suas patinhas fechadas e depois de tanta lambança, ergueriam-as no "Hu! Hu! Hu! Meow! O MMA vai começar!". Canalhas, covardes, independentes. Vou servir de exemplo a todos esses tolos, e eu, tão tolo como eles, andei no caminho do cachorro feliz.
Mas, de repente, maior que o próprio cachorro, a Mulher Maravilha da casa apareceu ao som do miado do já perdedor gato que partiria para a Glória dos Bichanos, pairar sobre nuvens em forma de novelos e pequenos ratinhos. Ah, seria a sua sentença por tanto eliminar ratinhos podres e indefesos e nojentos que não são o Jerry.
- Ôh, menininho, venha aqui... - A Mulher Maravilha pegou-o e o colocou seguro entre os braços poderosos com seus broqueis e foi para a casa, botando o próprio gato no retângulo sofá. O gato sinuoso de vida. A sua aventura termina por aqui. Até a próxima, bicharada...
Pronto, professora. Gostaria muito de te entregar meu texto depois de anos. Foi demorado, eu sei, anos de vida e frio na espinha.
Não me esquecerei que havia uma pedra no meu caminho, na minha escrita havia uma pedra... mas havia um papel quadrado e pautado também, e no Joquempô ganhei no elipsar da mesma folha.
 Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A Morte do Leiteiro (E Como Nós Matamo-lo Pela Segunda Vez)

A fala repetitiva é uma técnica de ensino. Porém, quando a insistência entedia, porque você já entendeu, queremos defenestrar o Cabra, a Cabrita, seja lá qual seja o mestre da repetição. Rememora-me quando “uma sala inteira matou o leiteiro”. Mas antes disso, vamos ao poeta...
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta gracinha. Até a Hebe Camargo diria isso se estivesse viva. No período do colégio, quando folheava inspirações, lá estava o poeta chamando a minha atenção. Eu pegava seus livros, lia algumas poesias e estonteava a escrever, não uma cópia dele, aquilo apenas botava fogo em mim. Digo apenas um “exceto” a respeito de algumas de suas poesias que não me levavam a uma viagem com um bilhete apenas de ida, um shot só, um suspiro quase igual ao do amo, mas não chega a tanto. Eu deixava-os passar quando chegava a vez deles. Pulava para aqueles que a memória gostava de receber e botava de lado as espinhas daquele peixão. E lá vinha para mim mais inspirações. Isso é muito bom.
Anos se passaram e entrei na faculdade de Letras. A matéria de Teoria Literária tinha um cheiro de “prometo, serei incrível”. É, foi quase isso, se não fosse a história da morte do leiteiro...
O professor ofereceu-nos dois textos, um subjetivo e poético e outro objetivo e jornalístico sobre a real morte de um leiteiro na época do guaraná com rolha. O jornal expunha fatos enquanto Drummond poetizou, mas me desculpe, foi uma longa poetizada.
E por quase um semestre inteiro, o professor Cotonete fez-nos estudar o mesmo texto por diversas vezes. Devaneava em suas digressões, e os olhinhos começaram a virar de raiva. Por isso, fizeram um grupo em conciso com toda a sala e reclamaram na coordenação. O professor, no ano seguinte, não voltou a dar aula na Universidade. Enfim, matamos o leiteiro de vez.
O Professor Cotonete era um homem inteligente, mas eu não entendia a insistência da sua repetição. A bola quicava para frente onde estavam outras ferramentas da literatura, mas a bica não foi dada. Muito triste tudo isso. Hoje em dia eu evito o leite. Tenho alergia.

Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Canga Brasileira Se Lava em Casa

(Essa crônica foi publicada excepcionalmente nessa quarta-feira).

"Roupa suja lava-se em casa!". Mesmo porque se alguém se suja, não existe outro lugar para renovar a roupa senão no meio dos seus e debaixo de seu próprio teto.
Em um evento recente, uma jovem comediante fez um stand up em Nova Iorque para diversos brasileiros que ali moravam. Antes, ela deu suas opiniões na internet sobre os jogos olímpicos em sua cidade, coisas reais, sim, que ocorreram e precisam ser revistas. Mas houve um problema enorme, porque a moça fez um vídeo-aviso para os estrangeiros que estavam vindo ao Brasil. Depois disso, na Big Apple, ela foi altamente hostilizada. Chorou, pois, as coisas não deram muito certo. Saiu do palco e deu sua opinião. Terminamos sobre ela aqui.
Eu estudo Língua Inglesa com pessoas do mundo inteiro aqui na Califórnia. Tailândia, Chile, Turquia, México, China, Ira, Argentina, El Salvador, Coreia do Sul, Colômbia, Itália, Vietnã, Camboja ... Uma Paella das Nações. A professora, uma Americana de Nova Iorque que dá aula na escola por 40 anos, e uma das mais incríveis que já conheci. Na gramática, um Pelé. Ela havia separado no segundo tempo das aulas de sexta para que alguns alunos falassem sobre suas nações, uma pequena palestra para que todos conhecessem mais de suas culturas.
Contudo, na primeira palestra da sala (nem sabia das palestras, isso no início da classe), eu passei mal antes do intervalo. Então, uma jovem brasileira carioca, foi apresentar sobre o Brasil:
- Quando vocês ouvem sobre o Brasil, o que vocês lembram? – Perguntou aos alunos. E o povo falava: "Samba!", "Neymar!", "Rio!". A menina arrematou:
- Não. O Brasil e muito pior que isso... - O que soube e que a menina expos as suas opiniões pejorativas. Conflitos em escolas, polícia entrando em salas de aula, ela falando na CNN.
Nesse ínterim, um baiano ouvia tudo isso. Outros rapazes de outras nações olharam para ele, perguntando se ele não faria nada porque a menina estava estraçalhando o próprio pais.
Quando foi dado o momento dos questionamentos, o rapaz, faca na bota, deu bicas de palavras. Ao seu ver, estava tudo errado expor o país daquela maneira. A menina chorou no seu romantismo, pelo que a consolaram mais pela estupidez do rapaz do que pela crise no Brasil. Contaram-me o fato, e só tive uma coisa a dizer:
- Eu ter passado mal foi livramento de Deus, só pode ser.
Se eu estivesse na sala, não saberia o que falaria. O clima ficou ruim depois disso. A menina não apareceu mais, tumultuou e foi embora para o Brasil. Quanto ao rapaz, enfiou a faca da bota em sua própria garganta. Esgoelar-se não valeu a pena.
Entretanto, semanas depois, a professora queria saber se outras pessoas queriam falar sobre seus países. Eu só pude levantar a minha mão e me oferecer.
Uma semana depois, eu mostrei o que amo no Brasil. Lugares desconhecidos para os estrangeiros que nunca ouviram a respeito. Construções históricas, bairros e comidas que eles nunca na vida degustaram. Expus como Deus marcou seus dedos nos Lençóis Maranhenses... Como Brasília foi construída por um homem que baseou suas elipses no Barroco; de onde veio o Açaí Berry; Como São Paulo não tem praia, mas temos parques, bibliotecas e museus, nossos bairros dos imigrantes, a comida saudosa do Mercadão Municipal da Cantareira, mortadela e Cod Pastry, santificados lanches... E como a minha infância foi aventurosa no bairro do Brás.
"O Brasil está cheio de problemas políticos e seus roubos. A educação não é boa, porém eu acredito em Deus, e acredito que Ele está fazendo algo pelo meu pais. O povo é trabalhador, e digo:
"The best of Brazil is the brazilians".

Há brasileiros que por aqui habitam que dizem não ser mais brasileiros. Esses, por esse motivo, perderam seu próprio R.G.: Eles não valorizam nem a si mesmos. São os sem-nação, pois esqueçam, vocês nunca serão americanos, ingratos. Eu sempre serei brasileira por onde correr com Deus. Aqui na terra, essa e a minha identidade provisória, já que um dia morarei no céu.
Relembre eu que minha terra ainda tem palmeiras onde canta o sabiá. Que as gaivotas que aqui gorjeiam, com certeza não gorjeiam como as de lá.

 Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Dia Que Virei um Dálmata

Quando soube que tomaria uma bicicleta para circular nessa cidade californiana, temi. Já tomei tantos capotes que me traumatizaram, e andar de bicicleta era um desafio para mim. Ao arranjar uma bicicleta emprestada, minha irmã queria me ensinar algumas manhas, como não brecar na dianteira e sair voando à metros. Contudo me lembrei de minhas experiências e disse a ela:
- Ih, depois da Serra da Cantareira ando em qualquer lugar!
Sim. A Serra da Cantareira. Ali há uma trilha de Down Hill tão terrível que certa feita um rapaz... Melhor não contar. Essa crônica não é o Cidade Alerta.
Tudo aconteceu quando um grupo de amigos loucos da igreja me convidaram para ir naquele terror. Sabia que não prestaria e mesmo assim fui com eles. Ao chegar na entrada da trilha, tomei um susto. Havia chovido e haviam sulcos profundos e sinuosos pelo caminho.
“É hoje que morro”.
Foi uma das experiências mais terríveis que eu vivi. Cai tanto da bicicleta que o corpo já não doía mais. Foi então que a trilha terminou e entramos numa estrada coberta de britas onde também circulavam carros. Fizemos uma fila, e eu sempre tinha medo de carros na mesma via das bicicletas. Então, algum abençoado gritou:
- Olha o carro!
Nisso, eu assustei, dei uma virada na bicicleta e me arrastei como um avião pousando na brita. Uma grande poeira subiu, e no meio dela a Vandressa dilacerada. Todos pararam, minha roupa toda esfarrapada, o osso esquerdo do quadril e as palmas das mãos raladas. Na minha boca formou-se um brigadeiro, e o nariz se impregnou de sujeira. Minha turma parou, foi me socorrer, deram-me água, primeiros-socorros e depois riram. Vão se catar todos eles. Até hoje eles riem de mim, e talvez na mente deles eu nunca mais deveria pegar uma bicicleta na vida. Bobinhos.
Ao chegar em casa, meu corpo inteiro eram hematomas. Eu era um dálmata.
Aprendi a andar de bicicleta quando morava no Brás. As ruas planas que dividem até hoje o espaço nos dias comerciais com os caminhões e sacas de grãos. Mas no fim de semana a rua estava livre, e nós gastávamos nossas energias infantis naquela rua da turminha do Brás. Quando consegui minha primeira pedalada, a rua inteira torcia por mim. Eles não pensavam na minha queda, eles torciam para eu ficar de pé.
Então, vim para a Califórnia. Aqui, ou você se locomove de carro ou de bicicleta porque alguns lugares são distantes demais para andar a pé. Descolei uma bicicleta para ir à Escola e para trabalhar. Teria que enfrentar os carros de novo, outros ciclistas, outras subidas e descidas. Meu Pai, lá fui eu de novo. E quer saber? Foi uma das melhores coisas que fiz nesse lugar. Não tenho medo da direção, não breco na dianteira, subi o assento e ganhei o chão.
Todos os dias, eu corro com ela. Pego trilhas, vou ao Harbour, desço até a praia. Às vezes eu grito de emoção na velocidade, e na noite escura e sem carro algum, na minha rua pouco iluminada, corro um pouco mais até alcançar o radar movido à energia solar. Sempre marca 11 miles quando passo, porém um dia corri um pouco mais e cheguei à 14 miles. Eu, Deus, e a bicicleta que eu não tenho mais medo de andar.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Do Angu ao Fondue, Tudo Posso

Caso hoje você apenas tenha comido arroz com feijão, angu doce no café da manhã e angu salgado no almoço, não se preocupe não. Amanhã, quem sabe, você estará comendo um prato especial em outro país do mundo, algo que você nunca viveu. Oportunidades abençoadas de Deus sempre aparecem aos que entram e saem de sua Presença, esses que sabem passar por qualquer situação.
Na minha pré-adolescência, logo que meus pais faleceram, eu e meus irmãos fomos morar com a minha tia e meu primo. O dinheiro que entrava não dava conta, e minha tia improvisava nessa história do angu. A gente não reclamava do que vinha no prato não, a não ser o quiabo, o rabanete, a buchada e, no caso do meu irmão caçula, a berinjela. A cena toda era na Vila Missionária, um bairro do subúrbio que vivíamos escapando dos “Billies The Kids”. Tudo podíamos, Deus era conosco.
 Muitos anos depois, numa porta que se abriu, peguei minhas malas e fiz uma viagem louca com uma amiga a Paris. Na rua do hostel havia um mercado Dia, muito popular em São Paulo. O ambiente era igual, mas a diferença eram os queijos dignos de Mercadão da Cantareira, patê de fígado de ganso (foie gras) e Chocolates Lindt como o nosso querido Lacta. Mas não. Naquele mesmo mercado comprávamos a preço de banana os nossos quitutes, mas o principal era a “Saladinha do Dia” – croutons, frango, alface... Comíamos isso para economizar e “andar por ai” numa cidade tão luxuosa e cara, o zelo tinha que ser constante.
Mas, numa tarde de muita fome, depois de desviar das pombas em Notre Dame e atravessar o canal do Sena, queria encontrar uma loja de cosméticos baratos. Perdi o rumo, entrei numa tal “Rue Saint Severin”, um beco estreito entre pequenos restaurantes e uma arquitetura mais antiga que a Brigite Bardot. De repente, paramos em frente a um modesto restaurante de canto, que apresentava em uma mesa e de forma bem atrativa um de seus pratos: “Fondue”. O queijo derretendo no foguinho do Richaud. Nos entreolhamos, era o sinal de “Hi five! Vamos ai”. Nunca pensei em estar em Paris, nunca pensei em comer aquela coisa de sabor inefável. Tudo podia. Aquele prazer foi Deus quem me deu.
Passado a viagem, numa preleção, ouvimos eu e minha amiga de viagem: “Sei passar necessidade, e também ser ter abundancia. Em toda maneira, e em todas as coisas aprendi tanto a ter fartura, como ter fome, tanto ter abundancia, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece”. Filipenses 4:12,13.
A amiga sussurrou em meu ouvido:
- Posso comer num dia “Saladinha do Dia” e no outro, Fondue.
Eu ri, chamei a atenção do preletor. Não era beijinho no ombro, foi apenas aquela situação.
Dou risada nos momentos de apenas arroz e feijão. Dou mais risada quando o inesperado acontece. Desde os tempos do angu, é Deus quem me fortalece.

 Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O Contralto da Tia Li

Cantar não é um chamado específico para mim porque todos nós fomos chamados para ressoar, coisa vinda dos céus até aos desafinados de coração. Todos podemos cantar, mas nem todos vão agradar, e faz jus ao ditado “quem canta os males espanta”. Certa vez escrevi em outra crônica sobre o cantar para Deus embora o desafino, o que vale é a palpitação do coração.
Nas igrejas existem os melhores cantores. Muitos desses músicos seculares saíram dos templos. Eles são os melhores porque foram criados para exercer adoração a Deus, mas o coração se nubla e vacalha na jornada.
Quando entrei na igreja, eu pensava que cantaria no louvor, que é a banda que toca e canta durante os cultos. Havia um teste para backing vocal para o louvor dos jovens, e corri para isso. Minha voz não se encaixava, não entendia bem aquilo, e a ministra de louvor, disse-me:
- Sua voz é boa mas fica bem para cantar no meio da congregação.
Melhor era abafar minha desafinada e ignorante voz.
Mas veio o teste do coral. Nem o fiz. A ministra de louvor olhou para mim e disse:
- Pode vir, Vandinha... – E deu uma risada conformada – Pode vir.
Então, comecei a entender o que era cantar tornando-me coralista.
Minha voz não se encaixava porque eu era contralto, a voz mais grave da ala feminina. Não arrasava tanto quanto um Soprano, tons mais agudos da ala feminina, mas quando aparecia, o blues celestial acontecia. Fui muito bem e permaneci no coral, até que entrou a Tia Li. Ela era uma mulher de cabelos curtos que sempre quando podia mudava de cor. Preto, castanho, loiro. Vestia-se muito bem! Lembro do seu terninho vermelho e camisa preta quando subia no louvor durante os cultos. Sua voz era do mais intenso contralto, e, depois que a ministra anterior foi ser missionária do Sul do Brasil, ela assumiu o posto.
Cai nas graças da Tia Li. Ela queria me colocar no louvor, mas na altura do campeonato, os céus me direcionavam para uma outra missão na terra. Mesmo assim permaneci no coral, não sabia bem o porquê.
Haviam passado duas cantatas, e tia Li me chamou para fazer um trieto de contraltos. Meu tom, claro, o mais grave, dava apoio às outras, e naquele Natal fiz meu serviço. Sai do coral na cantata de Páscoa seguinte. Encher o diafragma me dava muita tontura.
Mas a Tia Li permaneceu, dirigiu mais algumas cantatas, até que se constatou novos tumores malignos em seu corpo. Tempos antes, ela sarou, mas naquele momento, o câncer estava agressivo. Deus a levou para cantar nos céus. Ela veio de uma casa de Levitas, e tudo que Deus queria era a sua voz. Se hoje sou contralto, foi porque aprendi com ela.
Depois dela tentei entrar em outras cantatas, mas meu tempo não se encaixava. Sempre era chamada, mas nunca conseguia permanecer por falta de tempo e porque sabia das pressões que eram os ensaios.
 Todas às vezes que vejo um coral cantando, eu morro de vontade de voltar porque sempre tenho a impressão que os céus se abrem quando as vozes se unem. A Tia Li sabia fazer isso, fazer um ajuntamento para romper os céus.
Quando eu chegar lá no céu, vou cantar do lado da Tia Li, os contraltos poderosos ao Eterno, àquele que criou toda a voz.

 Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Torcedor de Cotovelo

O torcedor é o melhor cara que existe em um campeonato. Ele não está no estádio para receber uma grana pela sua presença, nem receberá medalha ou troféu. A sua maior sensação é a incrível alegria ao ovacionar a vitória de um campeão. Ele invejá-lo-ia se fosse um pobre, cego e nu, mas ele veste a camisa do time, do grupo, do jogador, e por isso tem ticket garantido na festa do campeão.
Eu e mais duas amigas da Universidade juntamo-nos em um grupo para apoiarmos umas às outras em nossas novas campanhas profissionais e estudantis. Em busca de um curso pós-graduado, cada uma com o tempo foi buscando os seus meios de vitória. Eu vim me aperfeiçoar na Califórnia. Uma iniciou uma pós-graduação incrível de Escrita de Ficção. Outra, que estudava Língua Francesa, foi abençoada com uma viagem para Paris. Nós nos apoiamos e pretendemos continuar assim. De nenhuma maneira os nossos cotovelos doem porque a minha vitória é a alegria da próxima.
O invejoso joga o campeão no poço. O torcedor joga o campeão para cima. E esse jogar para cima não tem traço de bajulador. Esse último não passa de um invejoso disfarçado de torcedor.
Quando usar o cotovelo o movimente para torcer. É muito melhor do que doer.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Joga-me na Piscina

Por muitas vezes, jogaram-me na piscina. Eu não seu nadar, mas confesso quando me fazem isso, e os arteiros que não leiam essa crônica. Ainda que goste, jamais devo ser jogada para uma piscina onde eu não possa apoiar meus pés no fundo. É risco de vida, chama o salva-vidas! Porém, a sensação de ter água totalmente à minha volta, é a mesma sensação incrível de ser completo por Deus.
Acredite, isso acontece.
Quando tenho momentos com Deus, e esse envolvimento se torna mais profundo, não tem espaço para outras coisas, a não ser o espaço profundo de Deus. É bem divertido, é um prazer inigualável. Se alguém te xingar no teu ouvido, não ouvirás, porque esse é outro andar que a vida agora habita. Se algo cair em sua cabeça, coisa ou pessoa, nem lembrarás, pois tudo é nada ao ser jogado na água.
Pois bem. É isso que quero. Uma piscina atraente, um convívio envolvente, um respirar profundo debaixo da água (como?). Isso, há respiração onde não há.
Hoje Deus chamou-me com uma trena do outro lado de um rio. Ele chama sempre aos poucos, e lá vou eu. Do outro lado estão os resultados, e nada se compara a isso. Se eu fosse você agora mesmo mergulharia na piscina de Deus.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A Noite Que Se Fez Dia

Há dias que parecem noite por 24 horas! Ainda que esteja o sol a brilhar lá fora, é um preâmbulo no coração daquele que se angústia na calada da noite.
A tristeza taciturna, o choro inesperado, o aperto no peito que dá vontade de gritar são sinalizações claras que o melhor remédio e clamar a Deus.
Davi gritou, Ana grunhiu, Israel clamou, Jesus chorou.
Algum fecho virá hoje. E o que basta para dissipar a escuridão. E típico que essa coisa louca e apimentada venha como confusão, solidão, rejeição, necessidade ou as próprias trevas vestidas de trevas (já que hoje em dia e desde os primórdios elas se disfarçam de luz. Tais palavras para quem tem sabedoria). Essas trevas e aquele não apalpar parede na escuridão.
Mas a luz e como a agua que não se contem no pote de tanto transbordar. E incontrolável, pois não há como cobrir uma lâmpada com um pano qualquer, nem um abajur resiste. E como o sol que tentamos escapar, e que cada aurora brilhara, desejando o homem trevas, de repente, haja luz. Os gregos entendiam como conhecimento, o revelar. Paulo entendia-o com seu próprio nome, e nomeio o deus desconhecido dos atenienses como o Senhor de toda a criação. Alguns ao ouvir todo aquele papo tiveram coceira nos ouvidos. Mas outros por ali ficaram, empiricando-se na conversa do Apostolo cidadão romano. Eles, no "haja luz", brilhou sobre eles o entendimento.
O conhecido de Deus não é como aquele que não tem para onde olhar. Algo dentro de si o chama para o alto, ao completo entregar-se.
Em meio as trevas, alguém disca por socorro. Então, Deus faz do negrume um belo dia, mesmo sem saber o sujeito como veio a claridade acontecer.
Vandressa Holanda Gefali
Direto Desta Geração

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sobre o Zachary

Assim que sai do culto da tarde, ainda o sol raiava, fui atravessar a Mission Street e me deparei com um rapaz numa cadeira de rodas na primeira via a atravessar, esperando o farol abrir, pois ainda existia outras, já que era canal para a Highway 1. Ele inclinava-se na sua cadeira de rodas elétrica e se voltava para mim como um desesperado. Quando me aproximei, o seu celular havia caído entre a sarjeta e a via. Olhei primeiro para os lados para não perder a cabeça, peguei e entreguei a ele.
E na descida até o DownTown, fui conversando com aquele rapaz que me disse ter sido cristão, desviou-se, e depois de um tempo voltou a andar com Deus. Sempre viveu na cidade, e seu apartamento ficava na avenida mais movimentada e apreciada da cidade.
- Então seu nome é Zachary, como o nome do profeta.
- Sim, e eu gosto desse profeta.
Num outro dia, encontrei-o de novo andando naquela avenida. Pacata e agitada e ao mesmo tempo opressa. Conversamos sobre “spiritual gifts” que são os dons que Deus manifesta na terra e tem usado os homens. Disse que Deus ainda manifesta todos aqueles e eles estão ligados à nossa fé; que Deus poderia usá-lo ali naquela mesma avenida, e poderia apenas oferecer uma oração, e todo o contínuo pertencia ao Senhor.
- Não, eu não sou batizado – ele disse.
- Então ore por isso. Deus é simples. Peça a Ele que o batize no Espírito Santo para que Ele manifeste esses dons. Eu e você vamos ser usados nessa avenida.
E assim declaramos.
Porém, todas as outras vezes que encontrei o Zachary, a cadeira de rodas elétrica prevalecia. A minha impressão era exatamente aquela. Uma Pacific Avenue e oculto nela uma pacific life nas questões de intensidade com Deus. Não tem como fazer pão se primeiro não separamos os ingredientes, depois juntamos tudo, amassamos e, logo depois das surradas, botar no forno. Pães são feitos na força gerada no momento que tornamos tudo uma coisa só; depois, o fogo, e finalmente, a obra.
Sentei no fundo da igreja, ele mal ouviu a Palavra que uma moça pregava com intensidade sobre o Reino dos céus, e quem pegasse aquela deixa, faria de um grão de mostarda um arbusto grandioso. Mas o Zachary não pegou. Ele estava do lado de fora próximo a batente da entrada. Depois, dirigiu sua cadeira até, talvez, o Abbey Cafe, que fica no prédio ao lado da igreja. Depois de tempos, ele entrou, ouviu um pouco do que a moça falava, e nem permitiu que a revelação se concluisse. Não sei para onde, esse Zachary. Foi embora?
Como ele foi parar na cadeira de rodas, nem perguntei. Não interessa também. Já passou. Mas o que interessa para o agora é justamente a chuva de pão daquele dia, que cai sobre cadeirantes e pessoas com pernas saudáveis.
Sobre o Zachary, eu só tenho a pensar que a oportunidade dos céus pode cair das nossas mãos, como o celular daquele rapaz. Não conte com a Vandressa vindo, uma pessoa nem sempre vai passar por ali.

Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Hoje Só Teremos Salada

Não. Hoje não vou escrever nada para vocês. Não quero que degustem um bife cheio de nervos e com uma gordura tão sebosa que não sai do céu da boca. Isso nunca vai sair de dentro de ti, e o pior, pode entupir as suas veias.
Eu recuso-me a preparar qualquer coisa para ti. Vamos comer uma salada de poucos parágrafos, fatiados em poucas sentenças, orações e frases e salpicado com boas e poucas palavras.
A vida saudável das palavras torna-nos mais incríveis.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Sem Condições. Eu Sempre Serei.

Eu sou crente, vou ser para sempre e não tem a mínima condição de deixar de ser! Sinta como se eu gritasse isso para você. Para você entender, uma vez fiz um negócio louco com Deus. Eu escrevi o nome Dele na minha mão, e Ele também escreveu “Vandressa” em sua mão, como um lembrete. Assim nós timbramos o quanto eu sou Dele e Ele é meu. Então entenda: Quem é sempre será, mesmo que esteja no Polo Norte pescando bacalhau ou passando pelo Vale da Sombra da Morte no fim do mundo. Afirmo isso porque estou longe demais do Brasil, da minha igreja, do convívio intenso que tinha por lá. Quem uma vez respirou o ar dos céus sempre procurará “ruah”.
Não, aqui não há igrejas de intensas adorações por horas e horas quando o relógio no teu pulso marca mais de 5 horas de adoração, tendo a incrível sensação que foram minutos. Por aqui se fala de manifestações dos céus, mas como o terão com cultos de uma hora e meia? E, desculpe-me se você não entende isso, pois só adoradores entenderão. O momento de adorar aqui é como se você colocasse um lollypop na boca de uma criança e o arrancasse antes dela acabar de degustar. No vale árido da adoração, eu mesma faço o meu altar aos céus. Quando ando por essas ruas, no sobe e desce do declínio de um bairro para o Downtown, do trajeto até o Pacifico, daqui e acolá, não tem a mínima condição de deixar de adorar. Se minha boca se apega ao paladar e nada falo, tudo se enche dentro de mim, como um grito que quero dar. É hora de esvaziar-se. É hora de repor o “ruah”.
Acreditem em seus jovens, igreja. Acreditem em seus pássaros porque eles são de Deus. Acreditem naqueles que adoraram, que adoram, e que nunca deixarão de adorar. Aqui o sol brilha, pois, aquele dia se aproxima. E ele virá. Que eu seja pega por Ele sempre adorando, rejeitando o mundo, desprezando os papos pequenos, as rejeições dentro e fora da igreja, que é tão pequeno e fica bem alojado debaixo dos meus pés... Ah! Tudo isso é tão pequeno quando eu adoro, e volto a repetir, e por isso não tem a mínima condição de deixar de ser Dele. O que duvidam, o que um dia duvidaram de mim, conjecturas humanas de quem não tem o que adorar, vai adorar, meu amor! Tudo é nano perto de um adorador.
Eu descobri que posso ir para qualquer lugar do mundo que meu peito vai arder por Ele. Sorry caso não entenda. Essa é a melhor sensação que um ser humano pode ter! Portanto, céus e terra aqui também se unirão, porque por onde eu for, eu serei Seu altar.
Se você se encheu desse papo, vá para a próxima crônica. Não tem a mínima condição de deixar isso, e o meu berro é a escrita.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Com Desprazer, Passas ao Rum

Falar de uva passa me faz lembrar da farofa do Natal e da pescaria feita na fatia de panetonne lotado de frutas (ieca) cristalizadas. Recorda-me também do doce alemão Strudel, que contém ricota e maçã para disfarçar o fiasco da condenada. E, claro, não posso esquecer da delícia do salpicão da vovó e da titia, sempre lembrando da maçã salvadora, se é que gostas da bendita. Eu não estou aqui para falar mal da uva passa, mesmo porque eu gosto dela. O entrave aqui é quando ela aparece nos momentos errados como certas coisas na vida que são enviadas para nós com aparência de “nice” mas é um verdadeiro desastre.
Com desprazer, apresento a vocês, passas ao rum - O sorvete.
Em verdade, em verdade vos digo: Amo esse sorvete. Não o vi em nenhum outro lugar do mundo a não ser no Brasil. Não estou ostentando as viagens que fiz pela grana suada de meu trabalho (thanks, Lord!), nem pesquisei na internet para fazer spoiler do assunto. Eu nem quero saber aonde foi criado! Eu quero é contar a minha história!
Assim como numa aventura longa em outro país que não precisaria tomar esse sorvete, ele surgiu na minha vida bem no dia que eu jamais precisaria dele...

Era tarde e eu tomara todos os remédios para a cirurgia que faria à noite para a retirada dos sisos. Oras, nunca tinha feito nenhuma operação na minha vida! Faltou-me é revelação para discernir que precisava jejuar dias antes porque o confronto seria fortíssimo, e por que? Meus dois sisos inferiores não brotaram, e estavam dentro da gengiva. Portanto, ele rasgaria a minha gengiva e os arrancaria... Mas do lado esquerdo, um problema: a raíz era como um gancho. Então previamente sabia que, além de abrir a minha gengiva, ele racharia o dente no meio, arrancaria um lado e depois o outro.
Pobre Chica.
Um lado saiu, mas o outro, não. O dentista tirava, mas o dente voltava como um elástico preso no osso. Eu fiquei na cadeira por quase uma hora, sangrando horrores, suando frio e orando na mente para que viesse um exército de anjos cirurgiões.
Luta travada.
A cirurgia foi desgastante para mim, para o dentista, para a auxiliar. Minha bochecha estava maior do que o convencional de uma cirurgia, de modo que o próprio profissional me deixou em casa e me deu o telefone da emergência (caso os pontos abrissem). Oh! Corria perigo de vida!
E onde o sorvete de passas ao rum entra? Agora mesmo.
Eu morava com meu irmão caçula. Cheguei antes dele, e assim que chegou do trabalho com a cara mais injuriada do planeta, pedi algo a ele.
- Você pode comprar um pote de sorvete para mim?
Ele fez um carão maior que o meu, pegou o dinheiro da minha mão com raiva, e foi a contragosto. Ao voltar, um pote de sorvete passas ao rum.
- Cara, mas eu não posso mastigar!
O amor do meu irmão foi tão grande e o meu por ele que tomei o sorvete na pescaria igual aquele panettone do Natal que narrei para vocês. Nem dava para murmurar mesmo! Passei dois dias naquele sorvete “rum, sim, passas não” até acabar, que eu não sou nêga de perder dinheiro nem comida. E damos Glória.
Por fim, entenda. Muitas coisas boas são BOAS em seus momentos certos. Mas nunca acredite que em todo tempo o será já que há tempo de abraçar e de se afastar de abraçar. Abrace a dica que tudo passa.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O Dia que Não me Preocupa

Quando eu pisei nesse país pela quarta vez, o agente federal perguntou-me se eu me casaria com um gringo. Maybe yes, maybe no, só Deus sabe, meu querido. Ele riu. Sua tranquilidade psicodélica estava filtrada pelo seu box que tocava Pink Floyd (The Dark Side of de Moon), a mesma droga que eu injetava na mente quando eu tinha apenas 14 anos. Saí do guichê rindo no canto da boca por tanto sincerar a minha vida do quem sabe diga “my love”. Mas não foi isso que decidi procurar aqui.
Um de meus familiares desejava que eu ali encontrasse um cristão numa igreja da cidade e tivesse uma menininha gringa num lar americano entre burritos, bacon e cookies. Daria o nome de Ashley, Queen, Viola... Que falariam com seu sotaque carregado e salientando “schwa” da fonética americana. Não é “schwa” das minhas filhas gringuinhas que procuro por aqui.
Enquanto estava no Brasil, boa parte dos amigos que sabiam de minha viagem apontavam e riam numa esperança no rosto. “Ah, você vai acabar casando por lá”. Ei, não é isso que vim procurar aqui.
No Brasil, o dia dos namorados. Aqui, o “Valentine´s Day” é apenas no começo do ano. Para que vou me preocupar, já que uma nova estação chegou para mim? E, para que vou me preocupar com a ansiedade dos outros que querem meu casamento, que estou velha, acabada, os cabelos brancos brotando na cabeça e que nunca foram pintados na vida, e isso é mais um sinal (da sua cabeça) que já passou da hora de eu matrimoniar? Meu amor, meu amor... Vai se catar... Eu estou na Califórnia.
Não se preocupe por mim, por mim não me preocupo. Nos pacotes de ansiedade, despacho meus pesos, e nessa leveza espero em Deus. Queriam jogar qualquer coisa em meu colo, gritando por vezes sem gritar que eu perdi a chance da minha vida. “Valha-me, Deus”, que mostre a todos vós essa profundidade. Jamais dormiria com um motor de ônibus tão barulhento que precisa sempre mostrar que é um busão. Subam todos, subam todos, mas não se incomodem com o barulhão.
Há um lugar mais profundo que o silencio do homem não consegue entender. Há um lugar secreto onde posso esperar a minha vez. Aqui ou em qualquer lugar do mundo posso esperar em Deus. O que valhe a pena é continuar correndo e correndo... E nessa corrida, sei que vou esbarrar em alguém. Não se preocupe, eu estou correndo.     

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Deus foi Generoso na Dança das Cadeiras

Deus é generoso demais. Tão que quando pronunciamos tal atributo nem fazemos ideia que Ele é muito mais do que a nossa imaginação pode manufaturar. Eu descobri isso numa oportunidade estranha, não que não soubesse... É que Deus ali se manifestou até com muita graça.
Era um culto na minha igreja. O templo estava lotado, e o louvor ressoava cânticos que não nos deixavam ficar quietos ou sentados. O grande problema, e sempre muito bom, era que não havia mais lugares para sentar.
Eu e uma amiga, que é branca e vermelha como no Trovadorismo, ficamos no fundo da igreja, aguardando a oportunidade da introdução nos conduzir a algum assento, e naquela altura seria num canto bem apertado com um irmão mais largo e nada sorridente.
Ali em nosso aguardo, percebemos a dificuldade, mas não deixei de pronunciar para ela:
- Deus é generoso.
Enfim, aquele lugar apertado, longe uma da outra, surgiu.
Porém, aconteceu uma movimentação dos céus. As cadeiras de repente se espalharam, as pessoas também, e aquela senhora foi tocada por Deus, e não importa como. Sabe quando passamos o pé na fileira de formigas no chão e todas elas se bagunçam tão tontas em si mesmas? Foi o que aconteceu ali. No esfriar da situação cada um sentou onde pode, e quando fomos perceber... Eu e minha amiga sentamos um do lado da outra! Pronunciamos juntos:
  - Deus é generoso! – E rimos como ninguém.
Até hoje rimos disso em cada situação complicada. Uma olha para a outra, e na graça diz “Deus é generoso!”.
Vou dizer o que é ser generoso. Li um texto sobre o amigo importuno lá na Bíblia e vou contar à minha maneira. Era a historia de um homem chato pra cacilda que de noite foi bater na porta de um camarada pra pedir pão. O amigo poderia ser sincero, não? Diria logo para o importunista ter Semancol que seus filhos já estavam na cama, poxa, e não era possível atende-lo. Mas, por ser tão amigo e seu "parça" tão mala, ele daria o bendito pão para ele. Deus é muito mais que esse pai generoso, e O é em excesso! 
Se naquela noite, só de pronunciar a generosidade Deus foi daquela maneira, imagine no restante da vida! Eu dou risada todas às vezes ao lembrar, e contínuo a declarar:
- Deus é excessivamente generoso.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A Nota "C"

Na minha época da escola, quando ainda chamávamos de primário as portas do saber, nas escolas estaduais de São Paulo as notas eram classificadas de A à E. O “A” era a ascensão a cânone. O “B”, ainda era tachada de inteligente, e quem o tirava, chorava por não ter chegado ao topo. O “C” era a ainda azul à beira do abismo, sinal que existia salvação para os condenados. Mas o “D” e o “E” era condenação total, as notas vermelhas do desastre escolar.
Por qual motivo estou falando disso? Oras, porque no fundo sempre estive na nota C. Não por ser ruim, mas porque no fundo sempre precisei de Deus, e nela Ele manteve-me por várias e várias vezes como sinal de superação.
Eu estava na terceira série. A classe inteira precisava de libertação, e para alcançar sossego, a professora lançou um desafio: quem ficasse mais quieto, ganharia uma pequena calculadora, um modelinho quase que de carteira. Somente eu e mais uma menina que costumava ficar epiléptica na sala éramos as mais quietas, mas por um vacilo por olhar para o lado, perdi a chance da calculadora.
Na quinta série, eu só perdia para uma pequena nissei que era impossível de superar porque nossos japoneses são melhores que os outros. Eu estudava à tarde, mas pela manhã frequentava um tipo de creche de meio período que nos dava auxilio escolar, alimentação e recreação. Eu havia feito uma prova de matemática na escola e tirei “C” porque a metade dos exercícios eu não consegui terminar. A professora entregou-me a prova decepcionada com uma das CDFs da sala. Eu entristeci, mas pedi ajuda a uma das tias da creche que entendia de Matemática. Na segunda prova, “gabaritei”. A professora não expressou sorrisos, mas orgulhou-se pela superação.
Para o “A”, sempre precisamos do próximo. Alguém para nos ajudar.
No final do quinto ano, tirei “A” apenas em Inglês, e todo o resto “B”. Entretanto, nos outros anos de escola, lutei, em verdade vos digo, e por mais que tentasse, o “C” perseguia-me.
Eu era burra? Não, aquilo era ensinamento dos céus.
Após crescer e me formar, vi uma reportagem numa revista que explanava sobre os alunos da nota “C”. Uma das entrevistadas, uma como eu, beirou essa nota por toda a sua vida escolar, mas na hora de prestar vestibular, conquistou o sim da medicina. Quem esperava? O “C” superava!
O “C” é a limitação do eu, o não ser deus de nada, é a mais pura dependência dos céus. Se tudo posso Naquele que me fortalece, que seja sempre no “C”, e nunca no “E”.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.