sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Uma historinha sobre os velhos vinis

Há coisas na vida que são deliciosas de lembrar. Hoje mesmo ao iniciar a leitura de um livro chamado Telegraph Avenue de Michael Chabon, rememorei quando eu tinha meus velhos vinis durante a minha infância colorida dos anos 80 e a minha adolescência nos anos 90 até que o vinil se tornou artigo velho diante do aparecimento do cd.
Na minha velha lembrança no apartamento do bairro do Brás, minha mãe havia comprado um som de última geração (óh!) e, a partir dali, a estante da sala encheu-se de capas de discos diversos que minha mãe comprava para ela e para nós. Trilhas de novela, rock nacional, lambada e samba, dividiam espaço com aqueles discos de músicas infantis e traiçoeiras que só um belo crente bem dotado notaria as patifarias from hell.
Enfim, tínhamos os nossos discos, que ao fim dos reveses familiares se juntaram com os discos maravilhosos de minha tia, um monte de pagodes e sertanejos, "jóias" em forma de hits na época, e que me incomodavam demais.
Era o começo da minha adolescência. Fascinei-me com o rock and roll e algumas facetas da MPB voltado ao estilo hippie que eu julgava ser melhor para mim. O primeiro play que eu comprei foi um duplo, Greatest hits do The Doors, e depois, Pink Floyd, Jethro Tull, Secos e Molhados, e mais outros que já não lembro mais.
Meu irmão mais velho já tinha muitos e muitos discos de heavy e black metal que era o verdadeiro som infernal, e cá para nós, desde lá eu e as trevas já não nos embicávamos. Ele, o meu irmão, preferia seus discos a qualquer outra coisa. Hoje em dia tenho certeza que ele trocaria todos seus plays por aqueles que ele ama.
Tínhamos tanto cuidado com nossos discos porque, por qualquer motivo, poderiam se riscar e fazer das nossas músicas uma eterna gagueira. Era horrível porque um vinil não era tão barato assim para nós que éramos adolescentes. Um dinheiro bem gasto era com o vinil! O dinheirinho vindo de um bico ou dos trocados ganhos do padrinho.
Então, aos 14 anos, fui estudar no Estado de Minas Gerais. Quando voltei num feriado para a casa da titia, descobri que ela havia jogado todos os meus discos fora. Doeu-me, mas quer saber? Ela fez-me um grande favor já que deixei de lado os velhos costumes.
Esses dias entrei na livraria e comprei o bendito livro de Chabon porque a capa me chamou a atenção: um vinil laranja que me lembrava jazz e blues. Foi por isso que escrevi essa crônica do vagão do metro até a minha casa porque logo na segunda cena do romance um rapaz manuseia com cuidado a bolacha como nós fazíamos antigamente. Então veio o texto que não demorei a escrever.
Nunca mais comprei um vinil. Não tenho toca-discos como o meu irmão tem. Hoje em dia, baixo dos nichos da internet as músicas que mais me interessam, e coloco num ipod menor que uma caixa fósforo tantas músicas quanto quiser adquirir.
Também não tenho os mesmos gostos de antigamente porque preferi o sabor dos céus e de músicas tão profundas que mudam a minha vida a cada espontaneidade de se estar na Presença de Deus. Não estou falando de música gospel. Isso você encontra por ai. Falo do degustar indescritível que você só pode provar quando canta verdadeiramente a Ele, uma adoração, um cântico novo.
Os vinis só foram lembranças. Para o passado eu não volto mais.
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração.