quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Corvo, curry e latrina


“O que você foi fazer na Índia?”.
Não pense que a pergunta é doce. Quem fala imagina qual seria o doido que daria parte das suas férias para fazer um trabalho missionário num país tão difícil de adaptar-se.
Eu. E outros doidos.
Com certeza não foi para ver um corvo rapineiro, comer curry e depois usar uma latrina. Todas essas coisas nós tivemos que presenciar, mas o que vale é o que está muito acima de todas aquelas circunstancias.

09 de setembro de 2011. Aeroporto de Chennai. 3 da madrugada.
Tudo era taciturno. As minhas vistas, a madrugada, a pele escura dos indianos do sul... Os corvos. Em toda a Índia que conheci, corvos sagazes por todos os lados, assim como as pombas tontas daqui, mas de tonto os corvos não tem nada. Saímos do aeroporto com nossas malas nos carrinhos em direção ao salão de voo doméstico. Indianos enrolavam a língua a alguns metros dali afastados apenas por um cordão de isolamento. Um cheiro ardia profundamente meu nariz e corvos voando como pombas lobas. Um deles pregou suas garras na luminária no teto, inclinou o corpo para baixo feito um macaco e grunhiu:
“Rraá! Rraá!”.
Não eram boas vindas.
Lembrou-me Edgard Allan Poe e seu “The Raven”. Lembrei-me do figurativo americano que diz que corvo é o símbolo da morte. Lembrei que corvos são aqueles que, como Noé ao fim das chuvas do dilúvio, lançou aos ares um corvo que não voltou porque achou a carnificina onde pudesse pousar e nunca mais voltar. Mas também rememorei Elias que comeu corvos que Deus supriu em seu momento de aperto.
Já estávamos a mais da metade da empreitada missionária. Comíamos no restaurante do hotel. Disseram-nos que viria um tipo de galeto. Meu... Pai. Era o passarinho assado da estatura de um corvo. Se era um corvo, não sabemos. Não comi, mas minha amiga risonha com seu bom humor disse:
-Ha,ha,ha!... Possa um corvinho pra mim!

Dois anos depois... São Francisco, Califórnia.
- Vamos ao restaurante indiano?
Sugeriu meu cunhado. Mas não pense que essa conversa foi em português. Também não pense que meu inglês é “wonderful”.
- Pelamor... Eu não gosto. Só como na Índia.
- Vandinha, vamos lá! Nem tudo tem curry. – Disse minha irmã.
- Ah, vamos lá... – Insistiu meu cunhado.
Eu não tinha escapatória.
No cardápio havia o “naan”, um tipo de pão sírio, e um frango vermelho de tanta pimenta – alimentos que eu lembrei muito bem. Pedi esses.
Depois chegaram os amigos do meu cunhado, “bmxers” como ele. Um deles, um rapaz ruivo de rosto quadrado e touca preta na cabeça, pediu aquele mesmo frango de corte estranho. Eu não resisti.
-It´s a crow.
- Cro, crow...! – O rapaz gaguejou e depois deu um riu largamente.
“Ela está zuando...”.
“Não. Não estou. Vai rindo.”.

Antes de eu viajar para a Índia, sugeri informalmente que fossemos em algum restaurante indiano em São Paulo. Loucura. Quero explicar que é importante, algumas vezes, não sofrer antes da hora. Isto é, coma curry na Índia e não queria usá-lo antes para ver como pode se sair no teste. Definição minha.
Uma das pessoas da missão disse uma vez que detestava curry. “Frescurite”, pensei. Mas só sabe que passa no caldeirão aromático da Índia. Ao pisar naquele país, as nossas narinas notaram no ar aquele cheiro que duraria por toda a nossa viagem. Era o curry. No café da manhã, almoço, jantar, algum prato tinha que ter curry! Óh, curry!

A latrina... Um buraco no chão com um molde de louça, plástico, sei lá, com apoio para os pés para, talvez, ter algum equilíbrio. A maioria dos banheiros na Índia tem latrina, exceto nos quartos dos hotéis em que ficamos.
Eu não usei uma latrina sequer. Na noite de uma oportunidade, estávamos no estacionamento do hotel em Coimbatore, esperando que as malas fossem postas acima do carro (pois na Índia quem vai dentro do porta-malas é gente). Nós iríamos ao estado de Andhra Pradesh. Perguntei ao meu pastor:
- Você sabe onde fica o banheiro?
- Ah, é logo ali atrás.
No pé que fui, voltei. E ele ria, e ria, e ria...
O banheiro com latrina reluzia uma luz fraquíssima, e diante da porta um fedor me embrulhou o estomago. Se aquele banheiro tivesse um confronto com um litro de alvejante, uma entidade se manifestaria.
Em nossos trabalhos missionários, quer de dia, tarde e noite, eu usei métodos estatísticos hipotéticos para nunca precisar enfrentar uma latrina ou um buraquinho no chão que fosse porque nunca fui muito boa de mira.
Assim que saíamos do hotel para as ministrações, recebíamos cada um, uma garrafa gelada e fechada de um litro de água para nos hidratar. Contudo o gelo da água não durava, e logo esquentava. O inverno da Índia é de 32 graus Celsius, portanto, era o ar da boca do dragão.
Pensei: “Se eu beber muita, mas muita água, eu terei que ir ao banheiro em qualquer lugar. Mas se eu não beber, morrerei de sede. Doses homeopáticas de água me hidratarão e não terei vontade de ir ao banheiro enquanto estivermos fora do hotel! E meu corpo não sofrerá tanto!”.
Funcionou. Não usei latrina.

Depois dos relatos, perguntem-me se volto para a Índia? Volto. Todas as vezes que Deus me comissionar. E se tiver que enfrentar corvos, currys e latrinas, mesmo que não haja dribles, eu certamente ali estarei.

Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração