quinta-feira, 2 de maio de 2013

Os anjos e os demônios em Nova Iorque – parte 3

Eu e a super-mala atravessamos a 34th street como uma via dolorosa. Quase trôpega, a mala de rodinhas e a mochila nas costas, desejava chegar à Penn Station ainda viva. Cheguei e vi a entrada do metrô oposto ao Madison Square Garden. A maioria das estações de metrô não tem escada rolante, por isso desci, mas não era ali. Subi novamente, e um senhor negro, do nada, viu que eu perguntei para duas mal-educadas, que não me responderam, onde ficava o embarque do trem para Nova Jersey.
- É ali embaixo do Madison Square Garden.
 Agradeci, mas foi quase o cheque-mate do meu estado de delírio. Debrucei-me em cima da mala e orei:
- Deus, me ajuda...
No mesmo instante vi adiante de mim dois anjos, não como se vê aos olhos naturais, mas com os sobrenaturais. Eram os mesmos que vi dez anos atrás...
Trabalhava como desenhista numa empresa topográfica no bairro de Perdizes. Enquanto digitava em meu computador, tive a impressão de dois caras de branco ao meu lado: um à direita, outro à esquerda. Não comentei, apenas pensei, visto que já sabia que os demônios não lêem pensamentos: “Sei... tem dois anjos atrás de mim”. Quando sai para almoçar, eles me seguiram, depois não os vi mais. Dias depois fui num culto de jovens na igreja de Caieiras, e um ministro veio em trazer uma palavra revelada sobre um plano de Deus na minha vida, que está ocorrendo hoje, e que o inferno sabia. Disse-me mais:
-... Por isso Deus enviou seus anjos para te proteger, e você já sabe disso.
Lá estavam os dois comigo em Nova York. Ergui apenas a cabeça, tendo a certeza que Deus estava comigo e de que aqueles dois anjos não me carregariam até a estação. Aquilo significava que eu tinha que fazer a minha parte, que o Senhor estava me dando respaldo.
A Penn Station, chamada também de estação da 34th street, é uma das mais movimentadas de Manhattan. Executivos, bluesmen, jazzmen, pedintes, vintages, todo o tipo de pessoas... Uma brasileira e os anjos. Várias entradas me confundiram, além do guichê dos trens interestaduais, municipais, intermunicipais. No caminho para o intermunicipal, lanchonetes, restaurantes, mercados. Uma maçã embrulhada num plástico filme brilhou como ouro para mim no balcão de uma lanchonete.
- Por favor, uma maçã e uma garrafa de água.
 Aquela maçã foi melhor que um Big Mac. Incrivelmente me deu forças. Consegui a passagem para o aeroporto de Newark, entrei no trem e me debrucei na mala. Virei para uma americana jovem, loura e simpática e perguntei se aquele era mesmo o trem para o aeroporto só para me certificar já que tudo estava dando errado naquele dia. Disse que sim e sorriu amigavelmente e achou graça como se eu fosse uma menininha, um ursinho. Porque as pessoas fazem aquela cara? Talvez porque a cada estação eu perguntava:
- Aqui é Newark?
Ela tirou essa foto para mim.
(Não saia daí. O confronto ainda não acabou).
   
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração


(Não saia daí. O confronto ainda não acabou).
   
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Os anjos e os demônios em Nova Iorque – parte 2

Músicas natalinas, eu já não aguentava mais. Em todos os lugares, na Macy´s, nas esquinas, nas lojas de brinquedos e na rádio em que o motorista ouvia naquele táxi de velório. Só tocavam aquele tipo de música naquela época? Aleluia de Handel, papainoelísticas, recitais de coral gospel...
- O senhor é cristão?
-Não, não! Não sou!
Disse-me o motorista negro de cabelos quase grisalhos, beirando os cinquenta anos.
Então, quer dizer que tudo aquilo era uma farsa comercial de todos os anos do uso de músicas de exaltação a Deus para vender seus bons produtos e fazer o dinheiro girar? Uma máscara como as luzes de uma cidade sem a Luz.
O motorista seguiu para o endereço. Não havia clínica nenhuma ali. Olhei o endereço de novo e deduzi outro número. Também não era. O transito não ajudou. Começou então a murmuração americana.
- Um momento senhor, deixe-me ver.
Foi quando lembrei que em Manhattan as ruas não se cruzam, são paralelas, e que as vias verticais são avenidas. Liguei na assistência.
- Escuta, dê-me o endereço certo. Aqui em Nova Iorque as ruas não se cruzam, e vocês me deram o cruzamento de duas ruas...
Nisso me custou quatro ligações até que acertassem o endereço correto e cinquenta reais do abusado do motorista. Acredite, eu briguei com ele em inglês, insisti, mas ele me deixaria sozinha com a super-mala e meu mal-estar em qualquer lugar. Eu não tinha forças. Estava com uma lata de energético nas mãos que não havia bebido por medo de vomitar no carro. Perdi o medo. A discussão fez espantar a disenteria também.
Finalmente, a clínicas dos hebreus na 34th East. O médico quis me internar para o soro, disse para ele:
- Eu tenho que ir. Meu avião decola às 2 da tarde. – Eram meio-dia.
Ele liberou-me e outro médico negro de simpatia me disse para tomar um ônibus já que meu destino era ir até a Penn Station que ficava ali mesmo na 34th West, mas depois de muitos quarteirões. Poor thing... Fui a pé, e foi uma experiência frustrante. Burra, diria...
Continua...
Vandressa Holanda Gefali

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