sábado, 12 de janeiro de 2013

Guichê quatorze


Era para lá de lá do bairro de Santo Amaro na zona sul de São Paulo. O ônibus não chegava logo, e eu atrasei demais para chegar à minha entrevista no Consulado Geral dos Estados Unidos. Desci numa praça. Descobri que tinha que andar numa longa rua até o local. Seria impossível se não tivesse pegado um táxi porque calçava sapato alto que já me estouravam os pés. Cheguei ao lugar lotado de pessoas, dentro e fora dos portões daquele imenso quarteirão.
Perguntei na portaria sobre meu horário, e funcionária me disse para encorajar:
- Entre nessa fila que talvez eles te atendam.
A fila era imensa.
No dia anterior, pela manhã, passei tão mal de ansiedade que meu estomago embrulhou logo antes de eu sair de casa para levar uma pilha de documentos no primeiro processo para conseguir o visto. Tive que vomitar. Feito, lavei o rosto, aprumei-me e fui enfrentar aquele dia frio e turbulento do mês de setembro de 2012. Depois daquele dia inacreditável perdi a ansiedade. Apenas me preparei para o dia seguinte, o da temível entrevista.
As profundidades dos fatos fizeram-me chegar à paz de Deus. Eu nisso pretendi ficar, pois aquele momento seria decisivo para o cumprimento de um propósito profético. Por isso pedi oração para alguns intercessores.
Todos os pobres e ricos colocavam-se em uma fila irônica, mostrando que todos podem ou não ter o seu lugar... Aquilo era realmente engraçado.
A fila serpenteava entre sete ou oito voltas até os vinte guichês de vidro blindado dos agentes americanos que entrevistavam os requerentes. Não procurei pesquisar estereótipos, tentando ver qual deles era o mais bonzinho ou o mais maldoso. Quando entrei na última curva, com quase quinze pessoas na minha frente, eu finalmente prestei a atenção num guichê  cujo entrevistador negou o visto para um rapaz que saiu triste pelo seu caminho. Não vi o número do guichê. No momento em que faltavam apenas cinco pessoas para minha vez, tive uma revelação audiovisual. Foi um suspirar, abaixar a cabeça e fechar os olhos sem pretensões de adquirir alguma amostra de Deus. Uma cena me veio como uma roleta, cujos números treze, quatorze, e quinze passavam, mas o que ficava era o quatorze. Como um imã, eu puxei-me para a direita, e pensei tão firme que era o guichê quatorze que eu iria. Quando olhei nos números escritos no chão em frente dos locais, vi que este era o número daquele entrevistador que negou o visto para o rapaz. Não me desesperei. Se Deus me quisesse mesmo nos Estados Unidos, eu entraria pela porta, e não pela janela.
A probabilidade de eu ser entrevistada no guichê quatorze estava entre as cinco pessoas na minha frente e os vinte guichês.
Na minha vez, a moça disse-me:
- Guichê quatorze.
Lá fui eu. Posicionei-me quieta na linha de espera para a entrevista, esperando que a pessoa que ali estava se fosse. O homem se foi, o americano me chamou. Tudo que ele me falou foi com toda educação, se prensas de parede, mas desejando sinceridade da minha parte.
- Qual o motivo da viagem?
- Turismo.
- O que você faz?
- Sou desenhista.
Ele me fez uma cara de interrogação.
- I´m designer.
- Para aonde você vai?
- Para Santa Cruz.
- Onde fica Santa Cruz?
- Na Califórnia.
- Onde você vai ficar?
- Na casa da minha irmã.
Havia prometido a mim mesma que falaria toda a verdade e não ocultaria nada, nada mesmo. Pessoas falaram para eu não dizer que tinha irmã lá que eles podiam não me dar o visto. Quando uma delas me falou, disse que falaria se perguntassem, pois, como já falei, entraria pelas portas se esse fosse o desejo de Deus.
- O que ela faz lá?
- Ela é comerciante.
Mais uma vez aquela cara de interrogação. Percebi que ele precisa estudar mais o vocabulário de profissões em português, e isso não é deboche.
Falei ao entrevistador que minha irmã já estava há muitos anos ali e que era casada com um americano. Apenas me fez mais uma pergunta, quanto era o meu salário, e se findou as perguntas. Apenas o barulho das teclas de seu computador, ele com meu passaporte na outra mão, e eu olhando para minha pasta recheada de documentos que nem abri, não precisei.
Finalmente o homem disse com seu sotaque americano:
- Seu visto foi aprovado. Boa viagem.
Sai na elegância dos pés com bolhas e tive vontade de dar um soco no ar – não o fiz, claro, a delicadeza anda com a galhardia. Agradeci a Deus pelo que Ele tinha me feito.
Era um dia frio de setembro. Peguei o ônibus para o trabalho, coloquei band-aids nas bolhas, almocei, mandei um e-mail agradecendo aos intercessores por suas orações e aguardei a minha viagem.
Eu arranco dessa história tantas coisas de Deus que eu posso compartilhar para qualquer um. Nunca tive oportunidade de sair do país como tenho tido hoje e sei que tudo isso é um plano de Deus. Em dois anos conheci quatro países, todos eles que no fundo foram missões dos céus. A minha dependência de Deus e o desejo de saber o que Ele tinha me levaram a essas experiências que eu chamo de sobrenaturais, ainda que se seja uma revelação tão pequena como um quatorze entre vinte outros.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Finalmente Nova Iorque

Eu só queria que o Frank Sinatra parasse de cantar na minha cabeça, que as luzes da Time Square se apagassem e eu pudesse dormir. Eu estava exausta.
Cheguei a Nova Iorque e tomei um susto de primeira dentro do metrô da Penn Station, que lembra muito embaixo do Minhocão em São Paulo. O blues tocado pelos artistas da estação se misturou com o cheiro de urina e muita movimentação ao passar do trem que veio de Nova Jersey para a subway. Quase deixei meu celular cair na linha do trem de tão nervosa quando o trem número A parou na estação. O que pegaria era o C, direto para o lugar onde ficaria.
O frio apresentou-se a mim sem muito prazer desde a saída do aeroporto, e me bateu na cara na 103th street. Entrei no hostel simples, barato, com a lanchonete interditada pela prefeitura de Nova Iorque. Meu quarto era no 4º andar – sem elevador. Alegrei-me muito com o rapaz que falava inglês que me ajudou a subir com minha mala. Ao entrar no quarto pequeno que constava um beliche, uma moça negra falava ao celular no canto do quarto perto do aquecedor. Era uma francesa reclamando horrores do lugar. Conseguimos desenvolver uma conversar compreensível com o nosso inglês com manias latinas. A menina reclamava e reclamava do lugar, e eu apenas lhe disse que hostel era hostel, assim, muitas vezes medíocre, em qualquer lugar do mundo. Deixei as minhas malas com cadeado no quarto, guardando e orando por algum receio de não ver mais as minhas malas ali.
Segui para a Broadway Avenue, tomando aquele estúpido frio que nunca senti, para pegar o metrô da linha 1 para a Time Square. Ali encontraria uma amiga. Na estação 42th street eu desci na movimentada estação. Ao sair, tomei mais um tapa na cara das luzes da Broadway, e me confundi entre ruas e avenidas, pois tudo são máscaras luminosas.
Não havia comido nada. Comprei um muffin de banana na saída do avião e dei duas beliscadas que não me deram força alguma. A loucura do Jet lag me deixou confusa desde a Califórnia, e confundi todas as refeições. Seja lá que horário de comer era aquele, eu tinha que me manter de pé. Comi um pedaço de pizza; encontrei minha amiga e fomos tirar fotos numa das esquinas mais famosas do mundo.
Ela fez-me uma pergunta quando fomos a um restaurante por ali mesmo: Se eu moraria em Nova Iorque. Disse que não, pois era loucura demais tudo o que tinha visto até aquele momento, e que jamais trocaria São Paulo, ainda que pudesse comparar em muitos fatos uma cidade com a outra.
Despedi-me, fui para o hostel. Minhas malas ainda estavam lá. A francesa foi reclamar em outro lugar. Dormi quentinha, cansada, agradecendo a Deus por conseguir chegar naquela cidade onde eu viveria grandes aventuras.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.