quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Corvo, curry e latrina


“O que você foi fazer na Índia?”.
Não pense que a pergunta é doce. Quem fala imagina qual seria o doido que daria parte das suas férias para fazer um trabalho missionário num país tão difícil de adaptar-se.
Eu. E outros doidos.
Com certeza não foi para ver um corvo rapineiro, comer curry e depois usar uma latrina. Todas essas coisas nós tivemos que presenciar, mas o que vale é o que está muito acima de todas aquelas circunstancias.

09 de setembro de 2011. Aeroporto de Chennai. 3 da madrugada.
Tudo era taciturno. As minhas vistas, a madrugada, a pele escura dos indianos do sul... Os corvos. Em toda a Índia que conheci, corvos sagazes por todos os lados, assim como as pombas tontas daqui, mas de tonto os corvos não tem nada. Saímos do aeroporto com nossas malas nos carrinhos em direção ao salão de voo doméstico. Indianos enrolavam a língua a alguns metros dali afastados apenas por um cordão de isolamento. Um cheiro ardia profundamente meu nariz e corvos voando como pombas lobas. Um deles pregou suas garras na luminária no teto, inclinou o corpo para baixo feito um macaco e grunhiu:
“Rraá! Rraá!”.
Não eram boas vindas.
Lembrou-me Edgard Allan Poe e seu “The Raven”. Lembrei-me do figurativo americano que diz que corvo é o símbolo da morte. Lembrei que corvos são aqueles que, como Noé ao fim das chuvas do dilúvio, lançou aos ares um corvo que não voltou porque achou a carnificina onde pudesse pousar e nunca mais voltar. Mas também rememorei Elias que comeu corvos que Deus supriu em seu momento de aperto.
Já estávamos a mais da metade da empreitada missionária. Comíamos no restaurante do hotel. Disseram-nos que viria um tipo de galeto. Meu... Pai. Era o passarinho assado da estatura de um corvo. Se era um corvo, não sabemos. Não comi, mas minha amiga risonha com seu bom humor disse:
-Ha,ha,ha!... Possa um corvinho pra mim!

Dois anos depois... São Francisco, Califórnia.
- Vamos ao restaurante indiano?
Sugeriu meu cunhado. Mas não pense que essa conversa foi em português. Também não pense que meu inglês é “wonderful”.
- Pelamor... Eu não gosto. Só como na Índia.
- Vandinha, vamos lá! Nem tudo tem curry. – Disse minha irmã.
- Ah, vamos lá... – Insistiu meu cunhado.
Eu não tinha escapatória.
No cardápio havia o “naan”, um tipo de pão sírio, e um frango vermelho de tanta pimenta – alimentos que eu lembrei muito bem. Pedi esses.
Depois chegaram os amigos do meu cunhado, “bmxers” como ele. Um deles, um rapaz ruivo de rosto quadrado e touca preta na cabeça, pediu aquele mesmo frango de corte estranho. Eu não resisti.
-It´s a crow.
- Cro, crow...! – O rapaz gaguejou e depois deu um riu largamente.
“Ela está zuando...”.
“Não. Não estou. Vai rindo.”.

Antes de eu viajar para a Índia, sugeri informalmente que fossemos em algum restaurante indiano em São Paulo. Loucura. Quero explicar que é importante, algumas vezes, não sofrer antes da hora. Isto é, coma curry na Índia e não queria usá-lo antes para ver como pode se sair no teste. Definição minha.
Uma das pessoas da missão disse uma vez que detestava curry. “Frescurite”, pensei. Mas só sabe que passa no caldeirão aromático da Índia. Ao pisar naquele país, as nossas narinas notaram no ar aquele cheiro que duraria por toda a nossa viagem. Era o curry. No café da manhã, almoço, jantar, algum prato tinha que ter curry! Óh, curry!

A latrina... Um buraco no chão com um molde de louça, plástico, sei lá, com apoio para os pés para, talvez, ter algum equilíbrio. A maioria dos banheiros na Índia tem latrina, exceto nos quartos dos hotéis em que ficamos.
Eu não usei uma latrina sequer. Na noite de uma oportunidade, estávamos no estacionamento do hotel em Coimbatore, esperando que as malas fossem postas acima do carro (pois na Índia quem vai dentro do porta-malas é gente). Nós iríamos ao estado de Andhra Pradesh. Perguntei ao meu pastor:
- Você sabe onde fica o banheiro?
- Ah, é logo ali atrás.
No pé que fui, voltei. E ele ria, e ria, e ria...
O banheiro com latrina reluzia uma luz fraquíssima, e diante da porta um fedor me embrulhou o estomago. Se aquele banheiro tivesse um confronto com um litro de alvejante, uma entidade se manifestaria.
Em nossos trabalhos missionários, quer de dia, tarde e noite, eu usei métodos estatísticos hipotéticos para nunca precisar enfrentar uma latrina ou um buraquinho no chão que fosse porque nunca fui muito boa de mira.
Assim que saíamos do hotel para as ministrações, recebíamos cada um, uma garrafa gelada e fechada de um litro de água para nos hidratar. Contudo o gelo da água não durava, e logo esquentava. O inverno da Índia é de 32 graus Celsius, portanto, era o ar da boca do dragão.
Pensei: “Se eu beber muita, mas muita água, eu terei que ir ao banheiro em qualquer lugar. Mas se eu não beber, morrerei de sede. Doses homeopáticas de água me hidratarão e não terei vontade de ir ao banheiro enquanto estivermos fora do hotel! E meu corpo não sofrerá tanto!”.
Funcionou. Não usei latrina.

Depois dos relatos, perguntem-me se volto para a Índia? Volto. Todas as vezes que Deus me comissionar. E se tiver que enfrentar corvos, currys e latrinas, mesmo que não haja dribles, eu certamente ali estarei.

Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A espada do He-man: a justiceira lá de casa

Nos meados dos anos 80, na desesperadora missão de minha mãe em educar eu e meus três irmãos, surgiu de repente a terrível solução de seus problemas. A espada plástica réplica similar a do He-man – a justiceira lá de casa.
Certa feita, quando meus irmãos mais velhos haviam aprontado uma de suas azucrinações, eles haviam escondido aquela santa cinta clássica que minha mãe sempre prometia apimentar com sal e limão caso a coisa piorasse no fogareiro de nossas criancices.
Naquele dia, ela procurou e procurou sua arma de justiça:
- Cadê a minha cinta!
Num canto, meus dois irmãos sussurraram:
- Não se preocupa. Eu escondi a cinta dela direitinho...Hi,hi,hi...
Até que, de repente, surgiu aquela espada de brinquedo do meu irmão caçula nas mãos da minha mãe.
-Há!
-Óoooohhh!!!...
E lá veio a minha mãe, a She-ra de pele jambo. Meus irmãos, e eu, nas desobediências seguintes, aprendemos bem o que é receber uma espadada. Passei a detestar He-man, aquele Adam de cabelo medieval que de repente fazia bronzeamento artificial e mancava feito um gorila.
Na época não foi nada engraçado, mas hoje... Hoje entendo o valor de uns tapas de minha mãe. Ela amava seus filhos, e o que cobrava era obediência e não a próxima surra com sal e limão. O seu aviso eram seus olhos pequenos, resumidos, de canto, vigiando, e depois um som dos lábios que faziam “hã...hã!”.
Aprendi com ela. Faço as mesmas coisas. Tenho uma espada nos lábios que se chama a Palavra de Deus. Tenho nos meus olhos os olhos que fitam em Jesus, e vejo o quanto ele quer se manifestar em mim para com os outros. E com tudo isso, a qualquer um que exortar, haverá aquele mesmo amor, mesmo que eu queira, às vezes, temperar a pessoa com sal e limão.
Aliás, sal e limão purificam, e dá um sabor...
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Os anjos e os demônios em Nova Iorque – Final

Vamos continuar aquela trajetória fatídica que vivi ao sair da Big Apple. Aeroporto de Newark. Ao chegar ao check-in uma funcionária que era brasileira me informou mais um inoportuno:
- Eu tenho uma notícia boa e uma má notícia.
- Vamos lá, me diga.
- O vôo até Salt Lake City ainda não saiu...
- Que bom.
-... Mas Salt Lake para San Jose só sairá amanhã de manhã.
- Cacilda.
- Olha, a companhia aérea vai te pagar um hotel em Salt Lake City e então você vai amanhã para San Jose.
- Poxa, hoje já me foi um dia terrível.
- Coitadinha...
- Coitadinha o caramba. – Pá! Bati no balcão e disse: - Eu vou nesse vôo.
Ao chegar à sala de embarque, faltando ainda algum tempo para o avião decolar, fui até o balcão da companhia aérea para me certificar de que estava no lugar certo, já que tudo estava dando errado naquele dia. Agora, a moça era uma portuguesa.
- Seu vôo é nesse portão sim, mas você poderia ir a San Francisco em outro vôo e de lá a companhia aérea pagará um táxi para você até Santa Cruz.
Pedi para fazer um telefonema para minha irmã. Ela achou viável já que me transportariam até sua morada. A moça arrumou meus dados, deu-me o voucher para o táxi, mudou os dados da mala para o mesmo vôo que o meu. Enfim, estava feito. Sentei na sala de embarque com satisfação e alívio por não perder meu vôo.
Horas depois em San Francisco...
Fiquei esperando aquela esteira entregar a minha mala, então, a esteira parou. A minha mala não veio. Fui ao guichê da companhia, pois lá eu iria mesmo assim.
- Moça, a tua mala foi para Salty Lake City.
          - O QUÊ?!
- E não podemos pagar um taxi para você daqui para Santa Cruz. Isso não existe em nossa companhia.
Meu cunhado não poderia me buscar em San Francisco por causa do trabalho. Fiquei uma hora e meia tentando resolver os problemas, entre telefonemas e discussões, enrolar de línguas e falta de compreensão. Tive que ficar em San Francisco num hotel pago pela companhia, sem meu pijama e minha super mala. Nada reclamei pelo hotel bacana em que fiquei. Só tive o que agradecer a Deus por ter sobrevivido a mais uma aventura. Afinal, para cada dia basta o seu mal...
Pela manhã acordei com o telefonema de minha irmã me direcionando a me preparar para voltar ao aeroporto, pois, conforme as boas argumentações de meu cunhado, arrumaram um travelbus para me levarem até San Jose onde meu cunhado me buscaria.
Fui para o aeroporto e lá estava a minha super mala. Outro funcionário da companhia, um argentino, ajudou-me com o voucher e voltei para a casa de minha irmã. Sarei totalmente da desidratação dois dias depois, à base da vida saudável das sagradas orientações de minha irmã.
Ainda guardo na memória aquele dia, e confesso: foi uma experiência incrível, tão incrível que não quero passar de novo. Nova Iorque com certeza ficou gravado em minha memória, cidade que visitarei algum dia de novo e que, com certeza, não comerei mais nenhum pedaço de pizza de qualquer kitchen hell. Vi Deus me guardar, enviando os seus anjos para me ajudar depois de devorado a pizza que o diabo criou. Essa é uma prova que nunca estou só aonde quer que eu andar, em qualquer lugar do mundo.
    Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

terça-feira, 18 de junho de 2013

Os cansados nesta geração

       As pessoas estão cansadas. Não agüentam mais. A insuportável história de Miguel já não passa da goela dos brasileiros de voz ativa, cansaram-se das chicotadas do Egito brasileiro.
Pela noite vi as trevas. Não via luz alguma para esses dias. Nas vigílias da noite as notícias dos céus não eram nada boas.
As pessoas gritam do fundo do abismo da servidão. Roubam seu dinheiro e seus direitos. Não há quem faça o bem e nunca peque. O Brasil está dilacerado e se rasga na voz do povo – que bem sei não ser a voz de Deus – mas sei que Deus pode ouvir seu desespero, enquanto são obrigados a construir, sem desejar, a soberba do Nilo.
O povo pede ação. Mas não ouvi ninguém pedindo a ajuda de Deus.
Sob luzes da Ponte Espraiada pedem justiça. Sob o fedor do Rio Pinheiros desejam o fim da podridão. O povo respira entre céu e terra as masmorras do inferno nacional.
Óh, pátria amada, quem pode te salvar da destruição?    
Eu também estou cansada como um Jeremias em meio a sua geração.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Os anjos e os demônios em Nova Iorque – parte 3

Eu e a super-mala atravessamos a 34th street como uma via dolorosa. Quase trôpega, a mala de rodinhas e a mochila nas costas, desejava chegar à Penn Station ainda viva. Cheguei e vi a entrada do metrô oposto ao Madison Square Garden. A maioria das estações de metrô não tem escada rolante, por isso desci, mas não era ali. Subi novamente, e um senhor negro, do nada, viu que eu perguntei para duas mal-educadas, que não me responderam, onde ficava o embarque do trem para Nova Jersey.
- É ali embaixo do Madison Square Garden.
 Agradeci, mas foi quase o cheque-mate do meu estado de delírio. Debrucei-me em cima da mala e orei:
- Deus, me ajuda...
No mesmo instante vi adiante de mim dois anjos, não como se vê aos olhos naturais, mas com os sobrenaturais. Eram os mesmos que vi dez anos atrás...
Trabalhava como desenhista numa empresa topográfica no bairro de Perdizes. Enquanto digitava em meu computador, tive a impressão de dois caras de branco ao meu lado: um à direita, outro à esquerda. Não comentei, apenas pensei, visto que já sabia que os demônios não lêem pensamentos: “Sei... tem dois anjos atrás de mim”. Quando sai para almoçar, eles me seguiram, depois não os vi mais. Dias depois fui num culto de jovens na igreja de Caieiras, e um ministro veio em trazer uma palavra revelada sobre um plano de Deus na minha vida, que está ocorrendo hoje, e que o inferno sabia. Disse-me mais:
-... Por isso Deus enviou seus anjos para te proteger, e você já sabe disso.
Lá estavam os dois comigo em Nova York. Ergui apenas a cabeça, tendo a certeza que Deus estava comigo e de que aqueles dois anjos não me carregariam até a estação. Aquilo significava que eu tinha que fazer a minha parte, que o Senhor estava me dando respaldo.
A Penn Station, chamada também de estação da 34th street, é uma das mais movimentadas de Manhattan. Executivos, bluesmen, jazzmen, pedintes, vintages, todo o tipo de pessoas... Uma brasileira e os anjos. Várias entradas me confundiram, além do guichê dos trens interestaduais, municipais, intermunicipais. No caminho para o intermunicipal, lanchonetes, restaurantes, mercados. Uma maçã embrulhada num plástico filme brilhou como ouro para mim no balcão de uma lanchonete.
- Por favor, uma maçã e uma garrafa de água.
 Aquela maçã foi melhor que um Big Mac. Incrivelmente me deu forças. Consegui a passagem para o aeroporto de Newark, entrei no trem e me debrucei na mala. Virei para uma americana jovem, loura e simpática e perguntei se aquele era mesmo o trem para o aeroporto só para me certificar já que tudo estava dando errado naquele dia. Disse que sim e sorriu amigavelmente e achou graça como se eu fosse uma menininha, um ursinho. Porque as pessoas fazem aquela cara? Talvez porque a cada estação eu perguntava:
- Aqui é Newark?
Ela tirou essa foto para mim.
(Não saia daí. O confronto ainda não acabou).
   
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração


(Não saia daí. O confronto ainda não acabou).
   
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Os anjos e os demônios em Nova Iorque – parte 2

Músicas natalinas, eu já não aguentava mais. Em todos os lugares, na Macy´s, nas esquinas, nas lojas de brinquedos e na rádio em que o motorista ouvia naquele táxi de velório. Só tocavam aquele tipo de música naquela época? Aleluia de Handel, papainoelísticas, recitais de coral gospel...
- O senhor é cristão?
-Não, não! Não sou!
Disse-me o motorista negro de cabelos quase grisalhos, beirando os cinquenta anos.
Então, quer dizer que tudo aquilo era uma farsa comercial de todos os anos do uso de músicas de exaltação a Deus para vender seus bons produtos e fazer o dinheiro girar? Uma máscara como as luzes de uma cidade sem a Luz.
O motorista seguiu para o endereço. Não havia clínica nenhuma ali. Olhei o endereço de novo e deduzi outro número. Também não era. O transito não ajudou. Começou então a murmuração americana.
- Um momento senhor, deixe-me ver.
Foi quando lembrei que em Manhattan as ruas não se cruzam, são paralelas, e que as vias verticais são avenidas. Liguei na assistência.
- Escuta, dê-me o endereço certo. Aqui em Nova Iorque as ruas não se cruzam, e vocês me deram o cruzamento de duas ruas...
Nisso me custou quatro ligações até que acertassem o endereço correto e cinquenta reais do abusado do motorista. Acredite, eu briguei com ele em inglês, insisti, mas ele me deixaria sozinha com a super-mala e meu mal-estar em qualquer lugar. Eu não tinha forças. Estava com uma lata de energético nas mãos que não havia bebido por medo de vomitar no carro. Perdi o medo. A discussão fez espantar a disenteria também.
Finalmente, a clínicas dos hebreus na 34th East. O médico quis me internar para o soro, disse para ele:
- Eu tenho que ir. Meu avião decola às 2 da tarde. – Eram meio-dia.
Ele liberou-me e outro médico negro de simpatia me disse para tomar um ônibus já que meu destino era ir até a Penn Station que ficava ali mesmo na 34th West, mas depois de muitos quarteirões. Poor thing... Fui a pé, e foi uma experiência frustrante. Burra, diria...
Continua...
Vandressa Holanda Gefali

Direto desta geração

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Os anjos e os demônios em Nova Iorque – parte 1

Era a minha última noite em Nova Iorque. Estava exausta, as pernas doíam. Fui dar um último passeio na Time Square. O frio não era tão cortante quanto do primeiro dia, mas rachara a minha boca de tal modo que não a movimentava.
Antes de voltar ao Hostel, entrei na pizzaria do inferno. Comi um pedaço de pizza enviado e fui embora. No momento em que subia devagar em meio às penumbras das luzes dos andares, vi passar na minha frente um anjo. Logo perguntei para Deus o que estava acontecendo.
Às quatro da madrugada descobri.
Acordei de súbito. Um sobe-desce dentro de mim. Eu conhecia aqueles sintomas, foi aquela pizza maledita do italiano. Se tivesse comido na Hell´s Kitchen faria jus, mas não foi. Tive uma desidratação que me deixou no banheiro por quatro horas. Tornei-me todas as cores, e só pensava que meu voo de volta à Califórnia era às duas da tarde, para ajudar, em Newark – Nova Jersey.
Houve uma segunda francesa chamada Agheta (ainda conto das minhas aventuras no hostel), que entrou no banheiro por volta das 7h30 perguntando se eu estava bem. Eu estava morrendo. Desejou-me melhoras e saiu para passear. A La France!
Entrei no quarto e liguei na assistência médica. Por várias vezes não conseguia falar com alguém que prestasse, até que um atendente de voz aguda me disse o endereço. Desci com as malas, um rapaz alto me ajudou. Cheguei para o check-out e uma negra forte de pescoço do Bronx me atendeu. Senti-me verde. Corri novamente ao banheiro. Pedi que ela me chamasse o taxi - o único favor que fizera. Desci 68 quilos de mala contra os 3 que perdi menos força. Parou um negro dentro de um ladau preto de porta malas de quitenete. Arremessou a mala e por 15 dólares fomos beirando o Central Park...
Continua...
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração

terça-feira, 9 de abril de 2013

Um pensamento sobre Robert Frost no Harlem



Talvez você nunca tenha ouvido falar desse poeta americano. No último ano de minha faculdade de Letras estudei literatura americana, e Robert Frost e seu poema modernista denominado “The road not taken” (O caminho que não escolhi) foi um dos que analisamos. O poema interessou-me, por isso a lembrança.
No fim destas linhas haverá esse poema. Não corra para lá tão eufórico. Vou dizer ainda o porquê do Harlem.
Na minha primeira manhã em Nova York procurei na internet a farmácia mais próxima do hostel em que me hospedava. Precisava atravessar o Central Park para comprar cosméticos e tomar café em algum lugar naquele frio escabroso daquela manhã cidade onde todo mundo quer estar no frio. Vesti tudo o que podia. O sol não me aquecia. Sai pela esquerda e direita no final do Central Park, onde já era o Harlem. Como todo bom turista, quis fotografar tudo, filmar tudo... Foi numa escolha de dois caminhos que lembrei e gravei sobre Robert Frost.
Sabe que dois caminhos todo homem vai ter que escolher. Talvez os dois apresentem-se iguais, em alguns aspectos semelhantes, mas não são. É como o caminha da luz e o do negrume. Escolhemos um deles para toda vida. Não escolhemos andar com Jesus ainda que não o percebamos nos caminhos de Emaús de nossas vidas, mas Ele sempre vai estar lá caso decida com Ele andar. Mas há outro caminho que pode ser um tremendo buraco negro. Vamos andando pelas bordas, achando que aquele atrair é bobo e que nunca vai nos sugar. Mas é como nadar contra a cachoeira, contra as cascatas de Foz do Iguaçu achando que nunca vai cair. E cai. Pois saiu do limiar. E então, o caminho que escolhemos parece sem volta.
Enquanto há respiração, há salvação. Mas entenda: daquele outro caminho de vida, já se perdeu todo o prazer de se pisar as folhas secas, de viver toda aquela diferença prazerosa de se andar com Deus.
Veja o vídeo. Podemos andar em segurança por um caminho ou vivermos ausentes do que Deus tem para nós.

O CAMINHO QUE NÃO ESCOLHI – ROBERT FROST

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia...

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A vida muito mais que um livro


         Não sou um personagem fictício. Não sou história para boi dormir. Não sou um personagem plano, convencional, cheio de marasmo de um livro de histórias. Eu sou alguém que Deus criou para algo diferente. Ele tem uma nova história comigo a cada manhã.
Se eu não acreditar nesse referencial bíblico, já não posso criar histórias, vivê-las com intensidade a cada dia – o mal que basta para cada feita. Quando acordo de manhã já penso que entrarei num enredo que Deus já abençoou, e ainda que seja medonho, a epopeia é toda minha, somente minha.
Então, chego a minha casa pela noite, tomo banho, como, vou orar, e começo a rir ou chorar para Deus, dizendo sem palavras sobre aquela situação do dia, que pode ser constrangedora ou não, e percebo que Ele está me ouvindo, rindo ou chorando também, constatando que eu consegui chegar ao fim do conto que ele escreveu.
Vou dormir. Durante a noite Deus digita outra peripécia. O que será dela? Bem sei que no final ela sempre terá o final feliz em consolos de paz.
Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Guichê quatorze


Era para lá de lá do bairro de Santo Amaro na zona sul de São Paulo. O ônibus não chegava logo, e eu atrasei demais para chegar à minha entrevista no Consulado Geral dos Estados Unidos. Desci numa praça. Descobri que tinha que andar numa longa rua até o local. Seria impossível se não tivesse pegado um táxi porque calçava sapato alto que já me estouravam os pés. Cheguei ao lugar lotado de pessoas, dentro e fora dos portões daquele imenso quarteirão.
Perguntei na portaria sobre meu horário, e funcionária me disse para encorajar:
- Entre nessa fila que talvez eles te atendam.
A fila era imensa.
No dia anterior, pela manhã, passei tão mal de ansiedade que meu estomago embrulhou logo antes de eu sair de casa para levar uma pilha de documentos no primeiro processo para conseguir o visto. Tive que vomitar. Feito, lavei o rosto, aprumei-me e fui enfrentar aquele dia frio e turbulento do mês de setembro de 2012. Depois daquele dia inacreditável perdi a ansiedade. Apenas me preparei para o dia seguinte, o da temível entrevista.
As profundidades dos fatos fizeram-me chegar à paz de Deus. Eu nisso pretendi ficar, pois aquele momento seria decisivo para o cumprimento de um propósito profético. Por isso pedi oração para alguns intercessores.
Todos os pobres e ricos colocavam-se em uma fila irônica, mostrando que todos podem ou não ter o seu lugar... Aquilo era realmente engraçado.
A fila serpenteava entre sete ou oito voltas até os vinte guichês de vidro blindado dos agentes americanos que entrevistavam os requerentes. Não procurei pesquisar estereótipos, tentando ver qual deles era o mais bonzinho ou o mais maldoso. Quando entrei na última curva, com quase quinze pessoas na minha frente, eu finalmente prestei a atenção num guichê  cujo entrevistador negou o visto para um rapaz que saiu triste pelo seu caminho. Não vi o número do guichê. No momento em que faltavam apenas cinco pessoas para minha vez, tive uma revelação audiovisual. Foi um suspirar, abaixar a cabeça e fechar os olhos sem pretensões de adquirir alguma amostra de Deus. Uma cena me veio como uma roleta, cujos números treze, quatorze, e quinze passavam, mas o que ficava era o quatorze. Como um imã, eu puxei-me para a direita, e pensei tão firme que era o guichê quatorze que eu iria. Quando olhei nos números escritos no chão em frente dos locais, vi que este era o número daquele entrevistador que negou o visto para o rapaz. Não me desesperei. Se Deus me quisesse mesmo nos Estados Unidos, eu entraria pela porta, e não pela janela.
A probabilidade de eu ser entrevistada no guichê quatorze estava entre as cinco pessoas na minha frente e os vinte guichês.
Na minha vez, a moça disse-me:
- Guichê quatorze.
Lá fui eu. Posicionei-me quieta na linha de espera para a entrevista, esperando que a pessoa que ali estava se fosse. O homem se foi, o americano me chamou. Tudo que ele me falou foi com toda educação, se prensas de parede, mas desejando sinceridade da minha parte.
- Qual o motivo da viagem?
- Turismo.
- O que você faz?
- Sou desenhista.
Ele me fez uma cara de interrogação.
- I´m designer.
- Para aonde você vai?
- Para Santa Cruz.
- Onde fica Santa Cruz?
- Na Califórnia.
- Onde você vai ficar?
- Na casa da minha irmã.
Havia prometido a mim mesma que falaria toda a verdade e não ocultaria nada, nada mesmo. Pessoas falaram para eu não dizer que tinha irmã lá que eles podiam não me dar o visto. Quando uma delas me falou, disse que falaria se perguntassem, pois, como já falei, entraria pelas portas se esse fosse o desejo de Deus.
- O que ela faz lá?
- Ela é comerciante.
Mais uma vez aquela cara de interrogação. Percebi que ele precisa estudar mais o vocabulário de profissões em português, e isso não é deboche.
Falei ao entrevistador que minha irmã já estava há muitos anos ali e que era casada com um americano. Apenas me fez mais uma pergunta, quanto era o meu salário, e se findou as perguntas. Apenas o barulho das teclas de seu computador, ele com meu passaporte na outra mão, e eu olhando para minha pasta recheada de documentos que nem abri, não precisei.
Finalmente o homem disse com seu sotaque americano:
- Seu visto foi aprovado. Boa viagem.
Sai na elegância dos pés com bolhas e tive vontade de dar um soco no ar – não o fiz, claro, a delicadeza anda com a galhardia. Agradeci a Deus pelo que Ele tinha me feito.
Era um dia frio de setembro. Peguei o ônibus para o trabalho, coloquei band-aids nas bolhas, almocei, mandei um e-mail agradecendo aos intercessores por suas orações e aguardei a minha viagem.
Eu arranco dessa história tantas coisas de Deus que eu posso compartilhar para qualquer um. Nunca tive oportunidade de sair do país como tenho tido hoje e sei que tudo isso é um plano de Deus. Em dois anos conheci quatro países, todos eles que no fundo foram missões dos céus. A minha dependência de Deus e o desejo de saber o que Ele tinha me levaram a essas experiências que eu chamo de sobrenaturais, ainda que se seja uma revelação tão pequena como um quatorze entre vinte outros.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.