domingo, 31 de julho de 2011

No ardor dos olhos

Foi assim que meus olhos arderam naquele fim de semana de 1983. Meu pai e minha irmã pegaram-me pela mão e saímos do apartamento. Pelas janelas dava-se para ver que o sol radiava forte. Descemos pelas escadas e corredores escuros do prédio antigo e verde, e assim que saímos do edifício passamos pela sombra diagonal do prédio garagem ao lado, foi quando o brilho do sol me pegou. Fiquei cega.
- Ai, ai! Meus olhos!
Os dois procuraram me socorrer e me perguntavam o que havia.
- Eu não consigo ver!
Cocei os olhos com os punhos fechados. Sentia o tato de suas mãos em mim como se aquilo ajudasse em algo. Mas o ardor não passava e meus olhos não abriam. Levaram-me para a sombra, e então consegui a custos abrir os olhos.
Nunca entendi o que aconteceu. Talvez o choque da escuridão para a luz tivessem me levado à cegueira momentânea, fato que algum médico pode comprovar ou não.
Sempre quando recordo, penso em Paulo no caminho de Damasco. Ele estava no sol, mas por um instante uma luz mais forte veio ao seu encontro a ponto de deixá-lo cego. Era Jesus perguntando o porquê de tal perseguição ao seu nome.
Eu era muito pequena, uns três anos. Até hoje tenho a impressão que Jesus me visitou, pois meus pequenos olhos já presenciavam absurdos demais nas sombras do pecado. Quero ficar com essa idéia fixa, a lembrar sempre o que Jesus me fala, que me preservou desde a infância.
Para todo ardor nos meus olhos haja colírio dos céus. Mesmo que seja Ele o causador da ferida, que toda vez a sua cura venha sobre mim.

Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A crás do corvo

O que confunde uma bela voz e o grito do corvo é a separação para a morte e não para a vida. Por que Deus designa a alguns talentos tais que outros não têm? Não acredito que seja para mergulhar em bel prazer ludibrioso, caminhos dos quais só levam ao figurativo do corvo, que é à sombra da morte que o persegue pela vida – se é que é vida.
Talentos nunca podem ser jogados fora, só é assim devido a sua aplicação. Se para vida, da qual Deus pode tomar conta, haja sucesso; se para morte, de certa forma já há suspeita de que, aquele talento que poderia honrar o Deus como fonte de riquezas, há em sua periferia a manipulação de destruição.
Não dá para cantar para si mesmo, encher-se o peito e depois murchar. Nem para se esvaziar de si, pois só o que esvaziou fala do que ainda há dentro de si. Cantar é extravasar, lançar para fora do jarro água doce ou água salgada. Para quem canta, sabe. Soltar o agudo ou grave de alguma forma é tentar pedir ajuda para alguém.
Quem sabe, e o é, Davi era assim. Salmodiou da sua alma Àquele a quem podia confiar o seu ser, Deus, que por muitas vezes o cercou de sua presença tão poderosa levando-o a escrever; passou aos músicos e cantores, Asafe, Jedutum, o percussionista, e todos cantavam profeticamente aquela canção. Desabafo, gratidão, dor, companhia, alegria, unidade, amor, compaixão. Estes são alguns dos salmos de Davi.
Se toda voz soubesse dos segredos dos céus de que um cântico de uma voz não é apenas de um cantor, mas sim de um adorador, jamais teríamos tantos artistas perdidos, drogados, amargurados de amor, e tantos outros fatos que só um dolorido pode contar. Talvez por esse motivo Deus ainda procure adoradores que o adorem em espírito e em verdade, e quando Ele o encontrar, jamais dele se apartará. Caso não o encontre, serão todos cantores como os outros, dos botequins às casas, dos palcos aos choros.
Ludibrioso canto do corvo, que na América antiga representa a morte, e com o tal se confunde, lançando fora quem era o mais importante.


Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Deus da nossa juventude

Faz alguns dias que fui palestrar aos adolescentes na minha igreja junto com uma amiga. O tabernáculo de Moisés foi o tema central daquela noite. No fim de todas as palavras, a Presença de Deus estava tão forte na sala que arrepiava as pernas. Deus estava em nosso meio, Poderoso, porque simplesmente falamos sobre Ele.
Foi uma noite marcante que me fez lembrar dez anos ou mais no passado, quando comecei a invocar a Presença de Deus num quarto precário, cheio de baratas e ratos. Descobri que podia me achegar à Glória de Deus por meio de Jesus e curtir da sua graça. Cada noite era uma experiência nova. Lembro-me que ligava para uma amiga que é coreógrafa, e dizia sempre o que Deus fazia comigo.
Veio tão pura, naquela noite, a lembrança desses dias. Toquei-me em pensamentos. Na verdade a maior caçada da minha vida, sim, é a Presença de Deus. A melhor coisa que há é se encontrar com o Pai em vida do que esperar a morte sem Ele.
Aqueles meninos e meninas de alguma maneira foram marcados por Deus, eu sei, assim como um dia eu fui também, e por esse motivo mudou a história da minha vida. Se hoje sou alguma coisa, foi porque a Presença de Deus me fez ser diferente.
Só de escrever essas palavras percebo que é preciso estar na Presença de Deus todos os dias da minha vida. O Deus da minha juventude, de hoje e sempre.


Vandressa Holanda Gefali
Direto desta geração.